domingo, 15 de novembro de 2009

"Diga-me o que vestes, que te direis quem és,
e se devou o não andar ao seu lado..."
Nos últimos dias, dois fatos se destacaram na mídia, mas somente um foi levado a fundo, enquanto o outro já caiu no esquecimento. Como sempre, por aqui, o que deveria ser discutido é o que se esqueceu, e vice-versa.

Caetano Veloso esbravejou contra o Presidente Lula, chamando-o de "analfabeto", e dizendo que ele é "uma vergonha para o país". Na hora, me perguntei 2 coisas: 1a - será que um letrado do nível de Caetano até hoje não sabe o significado da palavra "analfabeto"? 2a - será que um letrado do nível de Caetano acha que os analfabetos assim são por opção de vida, e, por isso, devem ser xingados e taxados de "vergonha" ? Lamentável ver que alguém que teve oportunidades na vida não seja capaz de reconhecer que os demais abaixo dele só estão ali porque não tiveram as mesmas oportunidades. Lamentável ver o preconceito puro - com pedigree - de um letrado, sua ira por estar sendo governado por alguém que, mesmo com muito menos oportunidades que ele, chegou bem mais alto, onde ele nunca esteve nem perto.

A declaração de Caetano, essa sim, deveria ter ganho a mídia maciçamente, e não o caso da estudante do vestido inadequado. Mas chamar o Presidente da República de analfabeto, isso não é tão grave. Grave mesmo é ridicularizar uma coitadinha de uma estudante universitária que não concorda com uma regra, não acha que deva seguí-la, e como principal argumento para essa transgressão manda o velho equivoco semântico: "vivo numa DEMOCRACIA". Assim sendo, vamos ao esclarecimento do século: DEMOCRACIA não tem nada a ver com liberdade total, oba-oba, passe livre pra agirmos como bem quisermos. DEMOCRACIA não é bagunça! Significa "governo do povo", onde a maioria dita as regras. Isso mesmo, regras. Todo e qualquer governo, em todo e qualquer lugar, as tem. E até podem ser contestadas, discutidas, mudadas, mas enquanto vigorarem, são para serem seguidas. DEMOCRACIA não é a desculpa perfeita para agirmos conforme nossa própria vontade.

Uma das regras que a sociedade criou é justamente o "vestir-se". A vestimenta é um traço social claro, algo que rotula, que separa em grupos, define a origem e o destino, o cargo, a função. A roupa diz praticamente tudo sobre nós. Uniformes não foram criados à toa. E uniformes têm significado único. Médico, Polícia, Jóquei, Bombeiro, Salva-Vida, Aeromoça, Prostituta... "Diga-me o que vestes, que te direi quem és, e se devo ou não andar ao seu lado"...

Todo mundo sabe que numa igreja não se entra com decotes, ou de biquini; que não se usa terno e gravata num clube, que não se usa saia justa e salto alto numa academia de ginástica, e que não se vai à aula de piano com aparato de mergulho. Alguns desses casos são por pura lógica; outras, por convenção; e outras, por questão de ordem. Da mesma forma não se usa roupas provocantes em uma instituição de ensino, e vir depois dizer que não compreende a reação dos demais, chamando-os de hipócritas. Hipócritas? Só vi esta moça vestida-pra-matar, e não os que a apedrejavam de palavras duras. Se essa moça tentasse entrar em um Fórum com o mesmo vestido, seria barrada, mesmo vivendo em uma democracia. Se tentasse entrar em uma igreja, seria repreendida, e talvez até barrada, mesmo vivendo em uma democracia. Se tentasse entrar em inúmeras repartições públicas brasileiras, perigo não ter a chance de chegar nem à recepção para mostrar seus documentos, mesmo vivendo em uma democracia.

No programa Altas Horas, a jovem só fazia reclamar, entre jargões batidos que ela mal conseguia repetir tamanha escassez vocabular; que fora humilhada e discriminada. Engraçado que, por ninguém, ela foi chamada de "analfabeta", mesmo não conseguindo falar uma única frase sem cometer erros gramaticais gritantes que provavam que ela não deve ler um gibi sequer. Os alunos da faculdade e mais a platéia do programa discordavam de sua postura, a criticavam muito, mas quanto mais o faziam, mais davam a ela o que ela tanto queria: atenção e exposição. Afinal, se ela não quisesse se expor, estaria "uniformizada" em vez de se destacar da multidão. Ela sabia que causaria polêmica. Desde o episódio, foram tantas participações em jornais, programas de auditório, convites para revistas masculinas, e, obviamente, comunidades no orkut, twitter e afins. Só me falta fazer anúncio de O.B (sim, pois já que o comprimento daquele vestido mostrava até a cordinha do O.B, por que não aproveitar a onda?).

No fim, deixa eu ver se entendi direito: humilhar e discriminar o Presidente da República, pode; mas humilhar e discriminar uma pobre universitária por vestir-se inadequadamente, é um absurdo, e deve ser discutido à exaustão! É isso mesmo? Porque, se for, tomo pra mim por inteiro parte da fala de Caetano: "é uma vergonha para o país"...

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