sexta-feira, 18 de maio de 2018

~ÉBANO AZUL~

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão se esvaía... Abria a janela azul e ao longe, tudo via: céu azul, montes verdes, pássaros, bichos e um imenso rio a correr... A Escuridão voltava, ainda que um pouco mais tarde, mas minha janela dormia aberta. Eu nunca temi a Escuridão! 

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão se esvaía... Abria a janela branca, com leve camada de poeria, e ao longe, tudo via: o céu com algumas nuvens, montes quase sem folhas, pássaros pousados em galhos meio secos, e o médio rio com natureza morta a nadar em si... A Escuridão voltava, agora um pouco mais cedo, mas minha janela dormia semiaberta. Eu não temia a Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão já não se esvaía totalmente... Abria meia janela cinza, com lascas de marteladas, e ao longe, quase nada via: o céu era nebuloso, os montes não estavam mais lá, muitos pássaros dormiam, bichos gemiam, e o pequeno rio estava quase parando... A Escuridão voltava em poucas horas, e minha janela se cerrava por dentro. Eu já era refém da Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão já dava gargalhadas... Abria o ferrolho da janela negra, mas não a empurrava, pois ao longe, mais nada via: o céu sumiu, os montes sumiram, os pássaros sumiram, e o rio congelou... A Escuridão reinava, e minha janela, já cerrada por fora, agora era cerrada por dentro, e aos poucos serrada por inteiro. Eu já era cúmplice da Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão voltou a atormentá-la... Coloquei uma cortina azul na janela, agora remendada; pintei-a de branco novamente, aquarelei um sol e uns montes verdes, e comecei a desparafusar as trancas. Perto, bem de perto, já via pássaros, bichos e o rio voltando a correr... A Escuridão saiu da cama e entrou em coma. Eu me divorciei da Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão a fez sucumbir... Clareei o azul da cortina, arranquei as travas, abri as duas abas, e ela voltou a ser Azul totalmente; e ao longe, tudo, e muito mais, via: arco-íris, incontáveis flores, frutos, cachoeiras, coelhos, ovelhas, gatos e cães... A Escuridão fugiu pela minha janela nova, e caiu na cova... Eu sepultei a Escuridão!!! 

Maria Eduarda Novaes

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

ILUSÃO: um Sonho natimorto?
(Ainda não sei o que vou ser quando crescer)

"Se o Universo não é um só, muito menos limitado, os Sonhos também não são apenas um, e não devem ter data limite, tamanho mínimo, ou qualquer regulação. Sonhos não são Ilusão, e, mesmo que fossem, Ilusão jamais será um Sonho natimorto, apenas um Sonho exclusivo, que não se compartilha com ninguém mais." - M.Edward War

De berço, já ouvia minha mãe dizer "faça a sua cama!", mas só há pouco entendi que isso sempre teve mais de um significado... "Fazer a cama" não era tão somente alisar os lençóis, esticar a capa protetora e organizar os adornos ao redor; mas também arrancar as grades, elevar sua altura e esticar o comprimento à medida em que eu crescesse. "Fazer a cama" é sobretudo organizar os Sonhos em riste ao longo do dia pra que não morram na Realidade, e, assim, eu possa seguir a construir uma cama para cada um se abrigar, protegido, até nascer. Tecnicamente, então, "fazer a cama" é zelar pelas sementes plantadas, e definir o que a gente vai ser quando crescer!

Será??? 

Eu ainda não sei o que vou ser quando crescer, porque ainda estou crescendo!!! Aliás, eu cresço e decresço, a depender do ponto de referência, e, de preferência, do que mais vantajoso for... Se for no Amor, eu estico; se for na Dor, encolho; mas vai mais é pelo Humor mesmo, porque há dias em que a Dor me faz ser maior que ela, e o Amor me faz rastejar. A depender da ideia, a coisa também complica, porque, se uma vizinha comigo implica, por pura pirracinha, faço logo o oposto do que ela retrucou! Porque assim sou: de momento a momento, um entra-e-sai de implementos, complementos, e inadimplementos.

Já quis ser um jornal, mas quando soube que não seria apenas boas notícias, me deprimi em vez de me imprimir. Já quis ser astronauta, mas ao saber que o céu é "O" limite, desisti! Já quis coisas arriscadas, certinhas, delirantes, cansativas, mesquinhas... Já fui da escassez ao desperdício numa mesma régua. Já quis ser uma guerra sem trégua. Já quis nascer aposentada, e morrer no auge da produtividade. Já quis ser cozinheira e curandeira, fervendo um caldeirão de salubridades. Já quis ser mágica ou detetive, autofágica ou uma curva em declive. Já quis ser dona de Tudo, ou no mínimo a sócia; vestindo saia de veludo num balão na Capadócia. 

Aprendi a fazer várias camas, e das mais variadas maneiras; e percebi que quanto mais as ampliava, menores ficavam os cobertores: se puxar daqui, descobre ali... Descobri! EUREKA!!! Foi-se a proteção do Mistério, e foi-se também a exclusividade, porque não dá pra caber de volta nele se não juntarmos retalhos de outras Quimeras. E é nesse novo construir que a gente enfim percebe que Sonhos dormem em camas flutuantes, e se cobrem com a própria teia de seda que não cessa jamais de crescer!

Por isso, ainda não sei o que vou ser quando crescer. É que quando achei que já havia crescido e me tornado uma escritora, me vi sendo nada mais que um livro inacabado! Sou um eterno Sonho que abriga a Realidade, a Fantasia, a Certeza e a Ilusão; e ainda uma última página em branco a acolher um novo querer, bem como aquele eterna inconclusão... 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

~Entre Pedras, Cadernos e Amores~


Por tantas vezes, caminhei caçando sombras para dar a elas os raios de Sol que trazia nos bolsos... Eram passeios por sobre as pedras e sob Silêncios, algumas vezes registrados em papéis... E quando meus silêncios cruzavam com tantos outros silêncios, me perguntava quais mistérios cada um trazia... Seriam os mesmos que os meus? Quais desejos enfeitavam as paredes de cada Universo, e quais cores, tempos e dimensões eles tinham? Mas, mesmo que eu perguntasse, respostas nunca vinham...

E agora, em uma nova estrada, a caçar novas sombras pra clarear e colorir, achei respostas que sequer precisavam de perguntas! Hoje, sei exatamente quais os raios de Sol que trago comigo, e quais somas de afetos constroem meu arco-íris: VOCÊS!!! 

Vocês são meus casamentos, minha maternidade, meus versos, minhas vaidades, a organização do meu caos, o papel de parede florido da minha gaiola de ouro... Vocês são meu Mapa Mundi, são cada roupa que visto pra conquistar cada sonho, e cada sapato que nivela cada curva dessa estrada. 

Nas regiões da minha Solidão, tudo o que fiz foi desenhar letras unidas, ora em microscópios utópicos, ora em abissais colossais. E foi assim que escrevi a receita da mais milagrosa analgesia...

Tudo que eu sei é que, seja no Norte ou seja no Sul, vocês são aquela mistura deliciosa de prosa cor-de-rosa com poesia azul!!!

Dani
Leca
Samara
Mercês
Verônica
Clara
Rosi
Lidiane
Candice
Kátia
Marina
Iza






quinta-feira, 23 de novembro de 2017

~ GUTO E O BALÃO ~

"Acorda, menino, que os sonhos do lado de cá também são muito bons"


Guto sempre gostou de Sonhar!

Quando bebê, ele dormia demais, sempre esboçando um sorriso no rosto. Durante anos, sua cama foi palco de batalhas épicas, de viagens interplanetárias, de espetáculos de dança, e pelo menos uma final de Copa do Mundo por semana. Acordar, pra ele, sempre foi a maior de todas as torturas. Quando chegava a hora da escola, e o despertador tocava, Guto entendia por que aquele objeto tinha o nome que tinha: ele "desperta a dor" que mora nos que não podem mais sonhar... 

Ainda muito pequeno, já trocava qualquer tempo livre por um cochilo, exceto quando seu avô estava por perto. “Acorda, menino, que os sonhos do lado de cá também são muito bons", dizia o vovô Johnny sempre que via o neto de olhos fechados. A Fazenda Ilusão era mesmo um sonho à parte, e Guto sabia disso desde muito cedo. Foi lá que virou amigo inseparável de Utopia, uma galinha das mais "conversadeiras", e também de Quimera, uma lebre agitadíssima; companhias perfeitas pra estripulias e peraltices de todos os jeitos. 

Seus nomes foram duas coincidências interessantes. Quando criança, Guto se chamava de "Uto", pois ainda não sabia falar o "G". E sua galinha de estimação ainda era uma pintinha bem piadeira, que ele amava imitar. “Agora essa! Uto pia o dia todo, quem aguenta?", disse a vovó às gargalhadas; o que inspirou o vovô a batizar a amiga piadeira do menino sonhador com o sugestivo nome de Utopia. Com a lebre, foi bem parecido. Muito rápida, ela corria demais, e o menino corria atrás sem conseguir alcançá-la de jeito nenhum, dizendo “espera, espera!". Como ainda era pequeno demais, parecia dizer "imera, imera", e o vovô, mais uma vez, associou o nome da amiga a algo bem típico do universo dos sonhos, chamando-a de Quimera. 

Guto, Utopia, Quimera e vovô Johnny eram o autêntico Dream Team (O Time dos Sonhos). As brincadeiras iam de mergulhos nas 20 mil léguas do laguinho das piabas até a construção de um Super Balão, que levaria os quatro aonde quer que eles quisessem ir. 

Vovô pediu à vovó alguns retalhos, linhas, agulha, barbantes e cola. E da sua oficina, pegou alguns pregos, parafusos, e uns bons pedaços de madeira. Utopia bicava as madeiras até fazer furinhos por onde passariam os barbantes, Quimera roía as bordas para um perfeito encaixe das toras, enquanto Guto e vovó costuravam os retalhos. Demorou um longo tempo, mas num finzinho de tarde, ele ficou pronto. A noite veio, e o encantamento de todos era imenso. Era tão agradável, que decidiram acampar ao lado pra ficarem mais tempo contemplando o Expresso Fantasia. Acenderam uma fogueira e ali permaneceram por horas, admirando cada pedacinho, só esperando o dia amanhecer pra saírem voando.

Foi então que todos pegaram no sono, menos Guto, que não resistiu e decidiu deitar sobre a grande pedra que havia se tornado a base do balão, e ficar bem embaixo do imenso pano colorido, só imaginando onde seria o primeiro lugar pra onde iriam. Mas de repente, um vento forte soprou por ali, passou pela fogueira e levou o fogo todo pra dentro do balão, fazendo-o voar, e voar e voar, cada vez mais alto e cada vez mais longe...

"Deu certo! Deu certo!"

Guto era o retrato mais fiel da felicidade. Ele via o mundo cá embaixo ficar pequeninho, enquanto seu sonho ficava cada vez mais imenso, a ponto de não se ver o fim. Mas ele não queria sonhar só. Nunca quis. Ele queria seus avós, Utopia e Quimera bem ali com ele, mas não sabia como voltar pra buscá-los. Foi quando ele teve uma ideia: dormir pra poder sonhar com mais força ainda, e fazer o balão voltar pra fazenda pra buscar todo mundo. Funcionou! Quando ele acordou, todos estavam com ele, e também seus pais e sua irmã.


“Entrem, entrem logo, é muuuito legal lá em cima. O Sonho é tãããooo grande, vocês vão adorar conhecer! Vamos!!!” 

Guto não entendia por que eles só choravam e riam ao mesmo tempo, e o abraçavam apertado, como se comemorassem o feito; mas não queriam subir no balão. 


“Está quebrado, meu amor. Não vai mais funcionar, esqueça isso!”

Sua mãe, aliviada por ter o filho de volta à terra firme, tentou convencê-lo a sonhar apenas sob a supervisão de seu travesseiro, e Guto ficou inconsolável. Queria a ajuda de todos pra reconstruir o balão, e não entendia o medo deles, mesmo de Utopia e Quimera. Não teve outra escolha senão catar, sozinho, cada retalho, cada pedaço de barbante e começar a reconstruir sua máquina mágica, até que percebeu que um sonho sonhado por tantos nunca poderia ser realizado apenas por um. Ele precisava arrumar um sonho que fosse só seu, mas sabia que a lembrança daquele dia não poderia se perder jamais...

Guto colou cada pedacinho dos retalhos e dos barbantes reproduzindo a imagem do balão na maior parede de seu quarto, fazendo de seu cantinho um lugar de sonhos de olhos fechados e sonhos de olhos abertos. E em cada pedacinho de retalho feito papel, ele anotava seus desejos – os antigos e os que iam surgindo a cada noite – ora com as letras, ora com desenhos, para retratar aqueles sonhos que só a gente sabe “ler”, portanto, palavras de nada adiantam. E quando enfim não havia espaço para um rabisco sequer, Guto percebeu que uma coleção de sonhos nada mais é que uma grande conquista; e que sonhar, por si só, já é viver um sonho.

Nasceu, se espelhou numa Utopia, perseguiu incansavelmente uma Quimera, e cresceu... E enfim entendeu que se o sonho nunca sair do papel, tudo bem, é só aprender a amar o papel, a colori-lo com esmero, a colar partes que rasgaram, a desamassar e restaurar os mais antigos, porque há sempre mais de uma maneira de se sonhar o mesmo sonho. 

Se um sonho nunca sair do papel, tudo bem, é só levar consigo partes dele na mochila para ter sempre o cheiro, a textura e as cores de cada momento, porque cada momento é único!

Por isso, aquele balão nunca mais voou, mas também nunca deixou, e nem deixará de existir... 



”Se um sonho nunca sair do papel, tudo bem, é só aprender a amar o papel” 

Maria Eduarda Novaes

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Portadora de Necessidades Espirituais
(como é ser uma deFÉciente)

Eu julgo que sim, sou deFÉciente! Eu carrego uma crença que sabe que é cega de um olho, surda de um ouvido, manca de uma perna, e tantas vezes incapaz de brilhar no escuro...

Minha FÉ sabe bem que já é uma senhora idosa que nunca chegou à puberdade; que se curva diante da Vida por culpa de um bico-de-papagaio (daquele que só sabe repetir padrões); e mora num armário de costura, a colecionar milagres esmigalhados e pedaços de papéis rasgados exibindo desejos riscados, passando os dias a remendar tudo com linhas mais resistentes...

Minha FÉ é apelido de Febre, que me sobe de repente, esquentando a cabeça, escancarando os poros, e vazando linfas por todos os orifícios. Uma força que já vestiu camisola de hospício, e que quando ora, ora lubrifica, ora seca meus olhos, como quem mira o Solstício...

Minha FÉ entende bem - mas preferia ignorar - que não há fórmula única que sirva a todos, que não há uma resposta universal que responda a qualquer pergunta, e que nem mesmo ela fala todas as Línguas. Por isso, já gastou muito dinheiro à toa tentando aprender com o espelho dos outros, mas também se desfez de outros tantos na certeza de ter o que ensinar! Porque ela quer ajuda, mas também sempre quis ajudar... 

Minha FÉ troca os turnos regularmente: dorme à luz da razão, e acorda na sombra da dúvida, onde, aliás, já realizou muitos sonhos que sequer ousou sonhar minimamente. Já colocou sal no suco, seguiu quem se autodeclarou `perdido´, decorou um livro escrito em páginas em branco, confundiu justiça com vingança, e tomou banho de inseticida como forma de descarrego... É pedra mole embaixo de água dura, e vê nisso um aconchego! 

Mas minha FÉ 
Tem dia que extrapola, 
E legaliza a Brisa... 
Só que, indecisa, 
Termina por voar 
Trancada na gaiola! 

É que ela se vê tão pequena e frágil, com direito a apenas duas letras, quando merecia carregar o alfabeto inteiro dentro de sua invisível sacola! 

...Mas é que isso de cuidar do Depois nunca depôs sua fixação por não dar um passo sem explicação! Por isso, a minha FÉ é uma membrana fibrosa, é uma brega das mais estilosas, é uma ciência humana que sabe ser exata, só não sabe exatamente quando ser... Minha FÉ já foi a Cruz de quem chegou ao apogeu. 

É cada partícula de lembrança das coisas que todo mundo esqueceu!

Maria Eduarda Novaes

sexta-feira, 2 de junho de 2017

~A CAIXA DE PANDORA~

Ela sabia que dentro de si carregava uma caixa com tudo: dores, rumores e amores. As dores só lhe traziam lágrimas, os rumores só lhe traziam medos, mas os amores lhe traziam bonança, segurança e esperança... Por tantos anos, Pandora sabia que se abrisse sua caixa por míseros centímetros em meros segundos, poderia ao fim reter apenas as dores ou apenas os rumores. Reter os amores, como desejava, seria uma loteria na qual ela não queria confiar. Ou melhor, querer ela queria, mas não conseguia confiar... E tantas foram, então, as artimanhas que Pandora criou para tentar enganar a Probabilidade. A primeira foi maquiar as dores e os rumores pra que a todos parecessem amores. As lágrimas passaram a cair sobre sorrisos, e os tremores do medo viravam pulos de euforia. Assim, acreditava ela, poderia enganar até mesmo os próprios sentimentos, que não mais se reconheceriam no espelho, entrariam em crise existencial, brigariam entre si; e nesse mata-mata, só restariam os amores, pois "o Amor sempre vence", não é? Mas logo viu que isso não deu nada certo, porque todos ainda sobreviviam, e os amores passaram a lhe doer, amedrontar, e isso tanto lhe confundiu a mente. Ela então chorava sem saber o porquê, sentia dores onde antes só reinavam torpores e suspiros, e estranhamente sentia amor por coisas que só sabia desprezar. Pandora então acabou com as maquiagens, e as dores voltaram a ser só dores - assumidamente fortes - e os rumores praticamente a congelavam, mas os amores ganharam novas faces. Ela custou a entender e a aceitar que eles literalmente se misturaram aos demais, e, dali por diante, as dores sempre lhe trariam lágrimas, os rumores sempre lhe trariam medos, mas os amores também lhe doeriam e estagnariam. Pandora passou a sentir medo do amor e a sofrer com ele, e assim ela não via mais vantagem em reter nada, pois nada mais era puro e inconfundível. Valeria mais a pena deixar tudo ir embora, e, da mesma argila com que fora feita, criar novos amores, e jamais ousar criar dores e rumores. Pandora então liberou suas lágrimas, seus medos, e suas bonanças, seguranças e esperança; pegou uma porção de sua própria argila e começou a modelar... Mas modelar o quê? E como? Ela não tinha nem mais lágrimas pra umedecer a argila, e muito menos ideias, desejos, nada! Ela não tinha nada mais!!! Foi o bastante pra entender que os medos, as dores e as lágrimas estão num trabalho de parto não à toa. Nada nasce antes deles, e nada nasce sem eles. Pandora entendeu também por que é depois da tempestade que vem a bonança, e não o contrário - que essa ordem nunca se inverte - e tudo lhe fez sentido. Dói pra abrir, e dói pra fechar. Dói manter aberto e vazio, e dói manter fechado e retido. Tudo dói, e tudo faz molhar, mas dor não mata ninguém, e dor não seca a gente. Rumores podem virar verdade pra uns, mas morrer rumores pra outros. E amores têm a cara, e as maquiagens, que damos a eles. Dores são inerentes, rumores são intermitentes, mas os amores sempre serão tudo, porque os amores são permanentes!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Hoje, eu fiz um aborto!


A cada manhã, a mesma rotina: eu te gestava, te alimentava, te sentia mexer em mim, e, assim, mexer comigo... Te levava pro meu banho, depois à praia, e dirigia meu carro com a consciência de que, agora, era você quem estava dirigindo a minha Vida. Eu passei a voar onde antes mal caminhava, pois a cada passo era uma queda livre. Porque você me afagava, passei a respirar onde antes me afogava; e meu sono enfim me fez dormir após aquele pesadelo contínuo que não me deixava acordar. E enquanto eu ia me doendo aos poucos, percebia você se doando; e via o tempo passar e você crescer a olhos vistos... Até que chegou o dia de você chegar por completo. Era o dia de nascer. Era o dia de eu me doer como nunca, me contorcer, quase me arrepender, mas ser recompensada por ver seu rosto, sentir sua carne, e te alimentar de tantas outras formas. Mas eu só ia me contorcendo, me arrependendo, quase agonizando, e você não chegava... Eu já tinha o espaço arrumado pra te receber, a comida pronta, ouvia e sentia seus sinais, mas o tempo ia passando e ao invés de ficar mais perto, tudo ficava mais longe... Fui pedir ajuda! No caminho, virando a esquina, esbarrei em outra barriga d´água, como a minha, pendurada em um rosto amargo, sofrido, a segundos de sucumbir... Um espelho!!! E enquanto o encarava, uns me gritavam "é verme", outros diziam "isso não é nada, não". Até que o espelho quebrou, atingido por uma pedra, o que me tirou do transe. "Ei, moça, isso é uma Ilusão", ouvia uma voz turva atrás de mim. Me virei. "Já gestei várias", ela continuou, "e elas não chegam, elas partem". Perguntei se elas partiam de nós ou se nos partiam. E só de perguntar, eu mesma respondi. E foi ali, no meio da rua, ao meio-dia de outono, com as folhas fazendo cama para mim, que fiz meu primeiro aborto afetivo!

...E a cada manhã, a mesma rotina: eu me gesto, me alimento, me mexo, me limpo, dirijo tudo, voo alto, respiro fundo, durmo e acordo comigo, e cresço por inteiro a olhos vistos!

Me doí, mas me curei. E nunca mais precisei fazer um aborto...


Maria Eduarda Novaes

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

~ de apelido "Roda-Viva" ~

(ATENÇÃO: contém Spoilers)


Se alguns infernos fossem mesmo provisórios, tudo seria mais fácil. E se alguns redemoinhos um dia se dissipassem de fato, também. Mas nem todo inferno é provisório, e alguns redemoinhos são mais que rodas-vivas: são rodas eternas.

O filme Redemoinho, de José Luiz Villamarim, com um elenco estelar, foi inspirado em contos do livro Inferno Provisório, de Luiz Rufatto; mas a mim, me pareceu uma transposição pro cinema da música Roda-Viva, de Chico Buarque de Holanda, onde só sua primeira estrofe resume tudo: tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu. A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a Roda-Viva, e carrega o destino pra lá! 

Os amigos Gildo (Júlio Andrade) e Luzimar (Irandhir Santos) passaram anos sem se verem. O primeiro se mudou pra São Paulo, ficou bem de vida, enquanto o segundo ficou em Cataguases/MG vivendo uma vida bem simples. Até que na noite de natal, eles se reencontram e percebem que, perto ou longe, em uma cidade grande ou numa província, o fantasma de quem partiu/morreu os estagnou - cada um a sua maneira - e ainda os assombra. Ambos tentaram deixar o passado realmente pra trás, mas o Redemoinho que os engolia só então fora percebido por eles. O tempo rodou num instante! E, como em toda roda, tudo volta ao ponto de partida. 

A dinâmica de um redemoinho foi a mesma de seu roteiro. Um redemoinho centraliza tudo, sugando e prendendo as coisas ali, mas sem deixar de mostrar o quadro amplo de suas bordas e meandros geradores dessa força centrípeta. Gildo e Luzimar são o centro da tragédia que vitimou Marquinhos, que enlouqueceu seu irmão, Zunga (Démick Lopes), e que estagnou a vida da mãe deles, Bibica (Camilla Amado). São também o centro da solidão de Dona Marta (Cássia Kis Magro), mãe de Gildo; da mudança de vida de Toinha (Dira Paes), esposa de Luzimar; e também da vida de Hélia (Cyria Coentro), irmã de Luzimar, e o grande amor de Gildo. E com a trama centrada neles, os demais se desenvolvem de uma forma bem peculiar: seus enredos são contados com excessiva presença de sons e imagens que atuam como sub-textos e mensagens subliminares. Sim, a fotografia e o sonoplastia são narradores secundários extremamente importantes na história. O trem, por exemplo, sempre passar quando é preciso quebrar os silêncios, e também em momentos de conflitos, amplificando seus "barulhos". O rio, a chuva e a ponte assumem a narrativa em flash-back de Marquinhos, Bibica e Zunga; enquanto a apatia, as caras e bocas, e as poucas palavras (em outras palavras, o talento absurdo de Cássia e Dira) assumem os destinos de Dona Marta e Toinha...Todos os elementos do filme são narrativos, e tudo converge para Gildo e Luzimar, mesmo parecendo ser Zunga o olho deste furacão, a "carregar a loucura de todo mundo nas costas", e só querer "ser normal de novo". 

Em redemoinhos não há reviravoltas, não há controle, há entradas, mas não saídas, e sobra tensão. E é nessa tensão constante que o expectador é mergulhado, e só não sucumbe de fato porque as levezas humanas, tão presentes neste roteiro, são o bálsamo que o mantém respirando na superfície - e ensinando que um redemoinho não necessariamente significa uma sentença de morte para todos os capturados por ele... Um filme que vale muito a pena!

Maria Eduarda Novaes

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

~Pequeno Segredo, Grandes Revelações~
Quando um Segredo é a opção escolhida pra não magoar, entristecer, ou é pra proteger alguém, ele automaticamente se vira do avesso e torna-se justamente uma Revelação. Esconder algo por Amor só faz revelar que se ama, o quanto se ama, e sobretudo quem se ama...

E falando em Amar, hoje não vim aqui despejar minhas críticas técnicas. Perdoem-me os que estão acostumados a elas, mas hoje, não. Hoje, tudo aqui é amador, pois vim apenas explicar por que eu amei essa história! 

A Família Schurmman entrou na minha vida em 2006, quando, em um concurso de um site, ganhei como prêmio o livro Em Busca do Sonho (2006). Dali, simplesmente quis saber TUDO sobre essa família aventureira. Comprei seus demais livros, exceto Pequeno Segredo (2012). Eu sabia da história de Kat - enquanto lia Em Busca do Sonho, a imprensa noticiou seu falecimento, e consequentemente eu soube como ela se tornou uma Schurmman - e achei que choraria e sofreria muito lendo "detalhes". Mas eis que dez anos depois de eu me apaixonar por essa família, o único livro que não li se torna um filme. E se já sou apaixonada por livros, imagine por Cinema... E imagine ainda por Júlia Lemmertz! 

Chorar passou a ser, então, mais que obrigatório!!!

Fiz questão de ver o filme sozinha, em uma sala/horário pouco concorridos, pois tinha receio de transformar o cinema num novo Oceano, ao liberar em segundos as "Cataratas do Iguaçu" há anos acumulada em mim... Entrei na sala com receios, prendendo a respiração, mas os minutos foram passando e o "melodrama" não havia dado seu recado. Me tranquilizei, relaxei, e curti Júlia Lemmertz, Maria Flor, Fionnula Flanagan, e Mariana Goulart. Os meninos que me desculpem, mas esse filme foi, como está na moda dizer, "uma bandeira no empoderamento feminino"! Nem o Pélago, em sua real grandeza, conseguiu se sobressair nessa. As meninas, a começar pela autora da obra homônima, simplesmente dominaram tudo!  - embora eu tenha de fazer jus ao "menino" roteirista, David, afinal, ele quem reuniu e exibiu o show das Damas. Obrigada, meu rapaz! 

Heloísa reatou um laço que Kat havia perdido, e assim criando um a mais para si e sua família. E é no centro desse laço que mora o tal Pequeno Segredo, que revela ser, simplesmente, a maior de todas as coisas: o Amor. Esse filme é uma história de família, que deixou de ficar restrita a um barco, e mesmo a um livro, e nos foi presenteada em amplo aspecto. É uma história de relações humanas que vão além da genética e da cultura; que prova que tudo o mais é coadjuvante e supérfluo, até mesmo a liberdade de navegar pelo Mundo. O Mundo, aqui, parece pequeno, parece segredo, mas é infinitamente maior que o Mar...  

Heloísa contou sua história, e Júlia Lemmertz mergulhou nesse Oceano particular fazendo dele a sua história. Eu quase esquecia o rosto de Heloísa quando o de Júlia a representava. Eu praticamente não conseguia ver "Maria Flor" como a mãe de Kat. Kat era de Heloísa / Mariana era de Júlia... E Júlia ensinou, pra "gringos e goianos", com e sem sotaque, como Amar alguém, numa cena irretocável e memorável que, pra mim, resume todo o filme! Vilfredo, David, Pierre, Wilhelm, e todos os demais personagens estavam tão pouco em cena, creio, porque preferiram assisti-las. Eu, no lugar deles, faria o mesmo. Eu navegaria nessa Imensidão de Mulheres fortes - de dimensões incalculáveis e infinitas - sem pensar duas vezes.

Era um filme, sim, e com estrelas nacionais e internacionais. Era um filme com cenografia impecável assinada pelo maior de todos os cenógrafo: Deus. Era um filme com todas as demais características de um, mas, ao fim, era simplesmente "uma linda história de Amor", que suavizou tremendamente uma grande tristeza. Uma lição de vida conduzida por uma Júlia Lemmertz linda, serena, enxuta, brilhante... Alguns filmes não são pra serem "analisados", vistos por sua forma, por seu conjunto técnico de cenas. São pra serem absorvidos, apenas. E aqui, o segredo é exatamente esse: a História em si. Todo o resto é detalhe. 

IMPERDÍVEL, Pequeno Segredo é um filme que faz chorar, sim... Mas não sofrer!!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

"Eternamente Antes, e Para Sempre Depois"


Quando, exatamente, uma Amizade começa? E quando termina? Impossível dizer! Amizade a gente estima o começo, e no fundo sabe que não tem fim. Mas se é pra falar de datas, então, falemos da última década... São quase 10 anos desse Amor que nunca morre, esse Amor que desconhece egoísmos, e todo o tipo de "frescura" capaz de desandá-lo. Há quase 10 anos que tenho ao meu lado uma Poeta-Inspiradora (melhor dizendo, minha Poesia de estimação); uma guia 24h, afinal, Poeta nunca se ausenta de verdade, só tira licença poética. Há quase 10 anos, eu tenho uma Poeta que compõe umas músicas que só a Alma é capaz de escutar - e a minha escuta cada nota com exatidão. Músicas que vêm daquela fábrica de Sentimentos que sobram no peito, e então escorrem pelos olhos (que até sorriem), e ainda por bocas e mãos, em palavras e carinhos. Mas a verdade é que minha Poeta sempre esteve na minha Vida, antes mesmo de saber que eu tinha uma Vida. Mas tão logo soube, a acolheu plenamente. É a prova cabal do Eternamente Antes, e Para Sempre depois! E hoje, a minha Poeta faz mais um verso. Sim, porque Poeta não envelhece, faz um novo verso. E pela mesma razão, Poeta também nunca morre, vira reticências... Há quase 10 anos, me pergunto, então, o que pode valer mais do que isso? E a cada vez que me pergunto, mais sem resposta eu fico, pois a resposta é justamente essa: nada! Nada nesse mundo vale mais que um Amor assim. Porque gostar de Poeta é mais que obrigação, é mais até que pura inteligência. Mas ser do gosto de uma Poeta é mais que privilégio: é, sim, a mais pura Dádiva que pode haver. Você é um presente de Deus pro mundo, e um presente do Mundo pra mim. E não há presente no Mundo que eu possa te dar que seja capaz de expressar a minha Gratidão, tão vasta... Será, então, que um "Eu Te Amo" basta???


Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Entre, por favor, e repare bem na bagunça!

...E eu sempre deixava tudo em seu devido lugar, com a faxina em dia, pois você podia aparecer a qualquer momento! Mas com o passar do tempo, eu vi que você não me alcançava porque ora estava com um pé atrás, ora a mil pés de profundidade. A casa, então, ia perdendo o cheiro. A poeira ia acumulando a ponto de se recusar a sair com facilidade depois. As teias de aranha iam se confundindo com a cortina do quarto e com os lustres da sala de jantar. E o bule de chá congelou às 16h59.

...E eu sempre deixava tudo em seu devido lugar, com a faxina em dia, pois você podia aparecer a qualquer momento! Mas com o passar do tempo, entendi que você sempre foi o meu universo surreal, a minha maior loucura. Alguém que amei de uma forma pós-concebida, e sem dar satisfação. Alguém que amei, mas simplesmente esqueci de avisar que amei. Eu entendi que construí uma via de mão única. Eu não te deixei mais que o acostamento onde você se encostou, e de onde nunca quis sair. E se um dia você não mais passear com os cães na Praça de Maio, tudo bem, eu voltarei lá quantas vezes forem necessárias só para seguir seu rastro. 

...E eu sempre deixava tudo em seu devido lugar, com a faxina em dia, pois você podia aparecer a qualquer momento! Mas com o passar do tempo, entendi que aquela cabeça dormindo no meu peito acontecia só do lado de dentro. E aquele cafuné que eu fazia era sempre no espanaDor. A casa, então, perdeu de vez o cheiro. A poeira se concretizou. As teias de aranha também. E o bule de chá enfim se quebrou pontualmente às 17h.

Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

~O Silêncio do Céu~

Dizem que o silêncio, além de prevenir problemas, é o melhor remédio contra todos os males. Talvez seja por isso que a máxima de "colocar uma pedra em cima do assunto" seja tão comumente usada. E em O Silêncio do Céu, essa metáfora foi concretizada. 

Carolina Dieckmann é Diana, uma brasileira radicada no Uruguai, mãe de dois filhos pequenos, que, junto à outra brasileira, trabalha como designer de moda. Diana é violentada por dois homens dentro da própria casa; e em seguida, demonstrando estranha normalidade, liga para Mário (Leonardo Sbaraglia) pedindo a ele que pegasse as crianças na escola. 

O que o público até ali ainda não sabia é que Mário - o marido que até minutos antes de a película começar era o ex, que havia voltado pra casa dias antes - tinha visto tudo, e até tentou reagir, mas por ser um colecionador de fobias, foi incapaz de tal feito, e passou a se culpar. Além da culpa, passou também a lidar com o silêncio sepulcral da mulher. Sem entender como alguém pode fingir que um estupro não aconteceu, o roteirista profissional se aproveita de seu ofício para primeiramente achar respostas e, então, escrever um personagem vingativo e vivê-lo além dos limites. 

A essa altura, você deve estar dizendo "pare, volte, me atualize! E a tal da metáfora concretizada???". Pois bem, obrigada pela lembrança! Assim que Mário percebe que a mulher está sendo violentada, ele pega uma pedra grande pra usar como arma, mas essa pedra vai parar em cima da mesa da sala, e lá permanece até a última cena. Dias vêm, dias vão, a família passa por ela inúmeras vezes, e lhe é totalmente indiferente. Agem como se não percebessem um elefante sentado no sofá da sala, e que sentou ali de uma hora pra outra. Diana não tirou a pedra porque ela representava seu silêncio. Mário não tirou a pedra porque ela abafava o barulho desnorteante dos medos que o atormentavam e incapacitavam desde criança. E os filhos não tiraram a pedra porque pra eles ela não significava coisa alguma. Mas essa não é a única metáfora concretizada ali. Os cactos são quase um grupo de atores coadjuvantes que representam toda a verve psicológica adotada pelo roteiro e pela direção. Chave do mistério, essas plantas tão presentes no enredo simbolizam a adaptação e a resistência perante condições inóspitas e até drásticas. É um cacto que fere Mário durante o estupro de Diana (o colocando talvez numa condição igual a dela). É um cacto que encanta os filhos do casal pela possibilidade de "se mexer", e trazer alguma novidade a suas rotina tão pacatas. O trabalho de Diana é baseado em cactos, e é por meio de uma metáfora que alude aos espinhos que ela finalmente extravasa sua dor, num único e raro momento de transparência emocional.

Filmado em dois idiomas, e em dois pontos de vista! Representado por um elenco estelar, o Silêncio, astro principal do filme, ao fim simplesmente transita. O que era apenas de um, passa a ser de ambos. Y la nave va...

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Ressuscite-me", por favor! 

E quando a Vida se esvazia de um tanto que só a Morte é capaz de preenchê-la? Ou seria a Morte não exatamente um preenchimento, mas uma redenção, o fim de um vazio que dói?

O filme "Mate-me, por favor" ilustra perfeitamente esse vazio onde a Morte tem mas significado e conteúdo que a Vida. Ambientado no bairro da Barra da Tijuca, entre prédios imensos que circundam matas ermas e trilhas quase sinistras, a película se foca em Bia (Valentina Herszage), uma adolescente de 15 anos, seu irmão João (Bernardo Marinho), de 25; e alguns amigos dela. Os pais são ausentes, assim como professores e demais adultos-guias. De liderança, apenas outra adolescente, a pastora da célula religiosa frequentada por eles. Sexo, palavra de Deus, festas luxuosas e assassinatos misteriosos compõem o enredo que mostra fidedignamente os conflitos que ditam o crescimento, a mudança de fase; e o quanto essa geração que tem acesso a tudo na palma da mão, literalmente, não sabe como lidar com isso, e se vê cada vez mais perdida do que encontrada. 

Com poucos diálogos, e muitas cenas escuras ou manchadas de sangue, a autora e diretora Anita Rocha da Silveira narra a obsessão de Bia pela Morte, começando com a notícia de que fora encontrado, no caminho da escola, o corpo de uma jovem; e culminando quando ela e as amigas encontram uma vítima agonizante, que morre bem diante dela. Bia se revesa então entre a vontade de matar com a vontade de morrer. Ora fere as amigas, ora vaga pela noite na esperança de ser a próxima na trágica estatística. "Sangue é vida" é uma das poucas frases proferidas pela jovem, que em sua maioria está calada e com olhar fixo e divagante, seja vazio ou preenchido com sua obsessão, que pareceu eleger Augusto dos Anjos como ídolo norteador. 

Os assassinatos - quem os cometeu, e por quê - acabam sendo esquecidos em tantos momentos, e o melhor é que o filme indica, mas não os resolve. Roteiros abertos estão sendo cada vez mais comuns. O público pouco a pouco vai se habituando a um cinema mais próximos à realidade, onde as coisas não acabam antes dos créditos subirem na tela. E ter um elenco basicamente composto por atores e atrizes em sua maioria desconhecidos e inexperientes traz uma quebra de expectativas que faz com que a história flua ainda melhor. 

A última e mais emblemática cena demonstra que esse é um thriller muito mais psicológico-comportamental do que propriamente um terror-suspense adolescente, e isso até pode frustrar um ou outro espectador. Mas aquele que aceitar mergulhar na psiquê perturbada de Bia não poderá dizer que saiu do cinema sem experienciar a tensão, a dúvida e acima de tudo o Medo. 

"Mate-me, por favor!" realça os ineditismos tão necessários num mundo praticamente assassinado por clichês. 

Maria Eduarda Novaes

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

~Enfim, a Era de AQUARIUS~
BB
 (atenção: contém spoiler)

Quem me conhece bem, sabe de algumas coisas: gosto de TEXTO! Não basta ter um bom argumento, o filme tem de ser bem contado em monólogos/diálogos profundos e marcantes - aqueles que dizem muito com tão pouco. Além disso, adoro encontrar também textos em forma de imagens, principalmente sutis; e gosto que tudo isso esteja diluído em um elenco capaz de reproduzir magistralmente o conjunto. Por fim, não sou nenhuma crítica profissional, então, vão perdoando aí qualquer coisa a seguir... 

Meu mês chegou, e logo de saída já me trouxe de presente de quase-aniversário a estreia de Aquarius - um filme que nasce numa ebulitiva e emblemática festa de aniversário em 1980. Um filme, aliás, cuja polêmica estreou primeiro, extrapolando a pantalha... É óbvio que o veria de qualquer forma, mas impossível negar que minha ansiedade e curiosidade foram amplificadas desde o tapete vermelho em Cannes. E hoje vejo reunido tudo aquilo de que mais gosto num espaço só: Aquarius é uma obra completa! 

Primeiramente (Fora, Temer!), um formato pouco visto, mas já utilizado pelo cineasta pernambucano, Kleber Mendonça Filho; que é um filme em capítulos. Três partes compõem o todo, centrado em Clara (Sonia Braga) e sua resistência em deixar o apartamento - o único ainda habitado - no edifício homônimo. Os porquês dessa resistência são o argumento em si, e cada tentativa de fazê-la mudar de ideia, tendo como réplica as suas condições (a ela tão básicas e indiscutíveis), compreende textos e interpretações indefectíveis, numa trama costurada a mão e com riqueza de detalhes. 

Clara é escritora especializada em música, e responsável por uma obra sobre Villa-Lobos. No aniversário de 70 anos da tia Lúcia, ao invés do tradicional "Parabéns", ao piano foi tocada a canção do compositor, chamada "Feliz Aniversário". No nordeste, a expressa maioria das pessoas celebra aniversários ao som dessa canção, cuja letra diz que "seja a casa onde moras a morada da alegria e o refúgio da ventura"... Anos se passam, e o apartamento é o mesmo. Até alguns móveis. Ou seja, "a morada da alegria e refúgio da ventura" é justo o que Clara pretende conservar com unhas e dentes numa guerra quase solitária onde até seus filhos encaram como pura teimosia dessa "mistura de velhinha com criança". Um espaço que já abriga os netos, mas ainda repleto de discos de vinil e outras antiguidades; de álbuns de família, de cheiros e lembranças de todos os gêneros, que parece importar mesmo só pra ela e para poucos, como sua fiel escudeira, Ladjane (Zoraide Coleto); seu irmão, Antônio (Buda Lira); sua cunhada, Fátima (Paula de Renor); o sobrinho, Tomás (Pedro Queiroz); e as amigas de gafieira e de vida - a advogada Cleide (Carla Ribas), e Letícia (Arly Arnaud), a que lhe indicou um garoto de programa, e depois ficou com ciúmes. 

A gafieira, mais uma tradição bem nordestina, tem outro papel peculiar na história. Sair pra beber, dançar e paquerar é quase que vital. E é após uma saída assim que Clara conhece um homem que a repele tão logo descobre que ela não tem uma mama, extirpada por conta de um câncer. A distância física que ele toma dela de imediato e o desconcerto na voz são um tapa na cara do machismo que só vê a mulher como um corpo, e que deve ser/estar perfeito sempre. Numa sutileza incrível, escancara o que é preciso escancarar. 

E enquanto dá alguns tapas no machismo, o filme simplesmente sapateia na cara da Ganância - sempre a frente das relações familiares, e de tudo o mais que ela precisar passar por cima. E é o embate entre Clara e o jovem Diego (Humberto Carrão), engenheiro que celebra seu primeiro projeto após uma temporada estudando "business" nos Estados Unidos, que pra mim resume tudo. Ao interpelar o garoto, tendo Ladjane como testemunha e colaboradora, Clara mostra a ele que falta caráter às pessoas, falta amor, e respeito pelas relações humanas e pela história de cada um. Que o caráter, hoje, é ditado pelo dinheiro. E é isso! Dizer o que mais? 

Situações que vão de uma "DR" entre mãe e filha a transas tórridas que ignoram quaisquer tabus, passando ainda por uma festa de aniversário para um filho já morto, pintam o quadro real do abismo entre as relações sociais e as pessoais, e mais os abismos de cada uma, preenchida com todos os tipos de preconceitos possíveis e imagináveis. O salva-vidas Roberval, por exemplo, chega a achar que Clara esta dando em cima dele quando ela pede o número de seu celular pra eventuais emergências - sugerindo que não há proximidades sem algum interesse, sexual ou financeiro, como mola propulsora. 

A trilha sonora é um show a mais. QUEEN e Villa-Lobos se destacam acompanhando Taiguara, Gil, Caetano e Bethânia. As musicas embalam uma mulher que incomoda bem mais do que é incomodada. Que une muito mais que aparta. E que se doa muito mais que se isola. E como num clipe musical, o sol inúmeras vezes é visto de frente, iluminando o apartamento; como se nascesse ali, naquele momento, a tal Era de Aquarius. A astrologia diz que quando esse signo reinar, trará uma evolução individual de forma acelerada, e com ela uma fraternidade a solucionar questões sociais com igualdade, proporcionando um conhecimento além do intelecto e da razão, com grande percepção dos sentimentos... Enquanto dança na sala pra esquecer os problemas, Sonia Braga abre pra nós os portais dessa Era, antecipando bem as coisas. Porque Clara enfrentou a morte e viveu. Gente assim, enfrenta o que vier.

Conhecer caras novas e rever outras como Carla Ribas e Julia Bernat (mãe e filha em Campo Grande), além de Irandhi, deixou um gosto ainda melhor. Como atriz que sou, pensei, num ato de pura breguice momentânea, que "quem me dera ser filha de um peixe pra nesse límpido Aquarius atuar", mas... Pelo menos soube aproveitar ao máximo o que expectei. 

Ao fim, nada poderia ser mais metafórico: Aquarius é cupim de demolição no já falido sistema capitalista e na pequenez humana que prega. Grandiosos mesmo, nesse cenário, são o edifício e sua incansável escudeira. 

Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

~ O RAPTOR DE MOMENTOS ~


Naquela manhã, a árvore principal da praça do coreto trazia uma faixa inusitada. "Procura-se Os Pássaros. Pago bem!". A delegada titular do minusculicípio de Chascona não entendeu nada. Havia pássaros voando por todo lugar, e não parecia que o número deles havia diminuído. "É meu livro, autografado, que sempre estava comigo na bolsa. Foi presente do meu falecido esposo", afirmou a chorosa moça que já a esperava na delegacia para registrar o furto. E o dia transcorreu às queixas numerosas, e de todos os tipos: ocorrência de furtos de urso de pelúcia, fotografia de lambe-lambe, disco de vinil, imã de geladeira, vidro de perfume, agenda colorida cheia de ingressos de cinemas, teatros, shows; e até de blogs invadidos e bloqueados na internet. Mas nada disso se comparava à queixa que viria no dia seguinte, e para a qual ela não estava minimamente preparada.

_ Ele invadiu meu sonho e me roubou inúmeras memórias, Doutora. A Senhora precisa acreditar em mim, e me ajudar!

Aquele não era um homem qualquer, era seu próprio pai! E gozava de uma saúde de ferro, além de ter uma memória invejável. Não era possível que da noite para o dia ele estivesse desenvolvendo um processo de demência senil num estágio já tão avançado. Experiente que era, resolveu dar ao pai o benefício da dúvida, ainda que aquilo não lhe parecesse minimamente plausível. 

_ Como o Senhor sabe que teve memórias roubadas se uma vez que elas são apagadas, a gente passa a nem saber que existiam??? 

_ Porque eu sei que você é minha filha!!! Mas aí veio aquele homem e foi levando as lembranças do seu nascimento, de sua infância, e de todos os momentos que houve até você fazer 20 anos... Eu tentei acordar antes para impedi-lo, mas não consegui. Tentei adormecer de novo depois, para persegui-lo, mas também não consegui. Preciso de seu trabalho de investigação, Doutora. Não tenho a quem apelar!

Soava óbvio que seu pai estava perdendo a memória, mas se ele acreditava que poderia reverter isso daquela maneira fantasiosa, ela, por amor, embarcou na dele.

_ O Senhor seria capaz de realizar um retrato falado do homem que... Bem, do homem que "invadiu" seu sonho e roubou as memórias?

A retratista fora chamada, e em minutos o rosto do raptor era construído. A delegada não reconhecia nele nenhum dos moradores da tão pequena e pacata cidade, mas teve a forte sensação de já haver visto aquele homem antes. Definitivamente, não se tratava de um estranho qualquer, e muito provavelmente era esse o responsável pelos demais sumiços misteriosos. 

Os detetives saíram a campo em busca das lembranças físicas dos momentos tão importantes das vidas das vítimas; e de pistas quanto ao paradeiro do meliante. A cidade estava apática. Pessoas portando ausências em bolsas e bolsos, carregando faces tristes e arrastando corpos em abandono. De vítimas a investigadores, todos os olhares estavam perdidos. Aquele foi um dia intenso, que pareceu ter tido bem mais de 24 horas. A delegada entrou em casa exausta e tendo de lidar ainda com mais uma frieza: a janela da cozinha tinha, estranhamente, sido esquecida aberta. O banho bem quente e o edredom se tornaram ainda mais urgentes. Tudo o que ela mais queria e precisava era relaxar debaixo das cobertas e pôr a cabeça no lugar para encontrar pistas conclusivas... E encontrou!!! 

A janela tinha sido aberta por fora. E o raptor deixou em sua cama o ursinho de pelúcia. Em uma busca rápida, a delegada encontrou em sua casa vários outros objetos furtados. Mas foi o que ela não encontrou ali que a fez entender todo o caso. Seu álbum de fotos estava caído no chão, aberto na página central, e faltando a foto maior, a de destaque. No lugar dela, a foto da Cachoeira do Zyuhlollém, ponto turístico próximo à Chascona; com uma mancha de sangue no meio. 

Não dava para esperar amanhecer. Ela reuniu toda a equipe e adentraram a trilha. A cada metro, os cães farejadores achavam um a um os pertences sentimentais dos moradores, espalhados de modo a despistar os homens pela mata. E quando o barulho da cachoeira já podia ser ouvido, ela ordenou que, dali pra frente, seguiria só... 

Deitado, quase sem vida, cercado do próprio sangue, estava o raptor, que segurava um papel em suas mãos. Aquele era o homem do retrato-falado de seu pai. O homem presente na fotografia levada. O homem que a amou loucamente desde a infância, mas que ela tinha apenas como um colega de escola e faculdade. Aquele era o homem que ela abandonou anos atrás sem sequer imaginar que estaria abandonando... Era tarde demais para chamar o socorro. Seus últimos espasmos indicavam que ele queria que ela lesse aquela carta. E mais do que isso: ele queria que ao menos ali ela permanecesse ao seu lado. 

"Eu tinha tantas coisas a te oferecer... Eu te daria um café com chantilly a qualquer hora do dia, e um cafuné molhado quando invadisse seu mergulho na nossa cachoeira. Eu te daria livros roubados, te colocaria clandestinamente naquela sala de cinema proibida pra menores, e te daria explicações científicas inventadas na hora só pra amansar suas dúvidas. Eu trocaria as notícias ruins dos jornais só para você não descobrir o lado feio do Mundo. Eu te daria risadas sem motivo algum, a serem celebradas com sorvete de morango com calda de chocolate quente. Eu passaria as noites transformando seus roncos em clássicas sinfonias a serem premiadas. Eu te daria uma queima de fogos em seus aniversários, e total imunidade ao Tempo, transformando suas rugas em meras impressões digitais nos meus dedos toda vez que eles as acariciassem. Eu queria fabricar um perfume que só grudasse em você, e que só eu sentisse, e a qualquer distância; e te tirar pra uma dança ao luar, dentro daquele vestido rodado sempre exposto na vitrine que você tanto adora. Eu queria abrir trilhas e espalhar pistas sobre elas só pra ver o seu prazer em investigar. Queria dividir com você os rascunhos dos meus sonhos pra você os aprimorar; e te dar tantas letras e vírgulas pra ver você brincar com elas formando palavras, frases, páginas, cartas de um Amor sem fim... Mas você partiu bem antes, e me levou tudo! E fiquei sem nada a oferecer nem mesmo a mim.

A Delegada fechou-lhe os olhos, cobriu seu corpo, e orou a Deus para que, onde quer que ele estivesse, ele se lembrasse de cada momento especial que planejou, e se esquecesse da Dor de não ter vivido um único sequer...

sábado, 23 de julho de 2016

~MÃE - e Gênia! - SÓ HÁ UMA~
"É pela obra que se conhece o autor" 
Jean de la Fontaine, poeta e fabulista francês, nascido em 1621

E é num ditado popular que enfim se consolidam não só a obra, mas principalmente sua autora. Não, eu não me refiro à máxima "Mãe só há uma", e sim à "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!". 

Anna Muylaert chegou ao mundo horas depois do golpe militar se instalar no Brasil (nasceu em 21 de abril de 1964). E como se já não bastasse nascer num país privado de liberdade, nasceu Mulher em uma sociedade altamente machista; mas ignorou esses "detalhes" e foi galgando seu espaço num esmerado trabalho de formiguinha... Não coincidentemente, sua fama e notoriedade chegaram de vez através de seu trabalho mais popular - no duplo sentido! - cujo título hoje é símbolo da luta pela resistência democrática. Em "Que horas ela volta?", Anna denuncia o Brasil segregacionista, desmascarando essa grande fatia do passado ainda presente para que ele não seja futuro. E o Machismo, ela combate se tornando membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e anunciando ser este tema o foco de seu próximo longa, ainda em fase embrionária. "Não sei ainda como será abordado, mas quero que as mulheres saiam do cinema pensando 'como eu pude sempre aceitar isso?', e os homens saiam envergonhados pensando 'como eu pude sempre praticar isso?'", afirmou a cineasta durante o debate pós-exibição de sua recente obra em Brasília, na noite de 22/07, evento do qual tive o prazer de participar ativamente. 

Ao contrário de "Que horas ela volta?", em "Mãe só há uma", o social fica em segundo plano, dando ao íntimo/pessoal um espaço de pleno destaque - a começar pelo plano fechado da câmera em seus personagens e ambientes, escancarando pessoalidades e particularidades. Livremente inspirado na história real do sequestro do menino Pedro Braule Pinto (o Pedrinho), tirado da maternidade em Brasília em 1986 por Vilma Martins (que ainda sequestrou outra criança anos antes), Anna apresenta ao público um adolescente que vê sua vida desmoronar da noite pro dia quando é informado que não fora adotado, mas sim roubado, e sua família biológica chega de súbito para levá-lo ao seu "verdadeiro lar". Essa mudança brutal assume o protagonismo quando o que de fato estava em evidência era seu processo de transição de gênero, a busca pela sua identidade sexual; um processo que, aliás, acontecia em total privacidade, mas que fora içado a fórceps quando Pierre passou a ser Felipe, o filho idealizado por uma família de classe média alta tão engessada pelas convenções que precisava "encaixá-lo" nelas.

Nada, absolutamente nada neste roteiro - de característica aberta - é acaso ou coincidência. Ao título, Anna faz jus dando à mesma atriz, Dani Nefussi, o papel de ambas as mães, nos remetendo à outra máxima bem popular que diz que "mãe é tudo igual, só muda de endereço". Como nada é mais clichê que ditados populares, então, pode-se esperar um filme repleto deles, certo? Errado!!! Trazendo apenas uma figura realmente famosa e conhecida do grande público, que é Matheus Nachtergaele, de personagem homônimo; a obra já aí é um desmanche de todos os rótulos. Quem tentar, por exemplo, rotular a sexualidade de Pierre pode acabar maluco; assim como esperar que todas as cenas tragam uma justificativa para a cena anterior e um prenúncio para a seguinte. Tendo como ponto de vista o conflito do protagonista, a narração é fiel às lacunas que sufocam o adolescente - lacunas essas que serão preenchidas pelo público, já que o filme não julga, portanto, não explica e nem define nada!

Um filme de baixo orçamento, com caráter tão doméstico, chega pra contrastar o sucesso anterior em tudo, exceto no sucesso em si. É óbvio que muitos irão ao cinema esperando várias semelhanças entre os "filhos" só porque a Mãe é a mesma (ou seria melhor dizer "as mães"?), mas fora a qualidade geral da produção - de excelente elenco e ótima exposição da temática proposta -, não esperem ver na rebeldia de Pierre uma continuação daquela presente em Jéssica. Porque enquanto uma gritou por tantos, o outro grita por si! Dois lados de uma mesma moeda que mostra o preço que pagamos quando o social entra em cena pra simplesmente padronizar o pessoal ao invés de compreendê-lo, e, sobretudo, aceitá-lo.

E enquanto "Mãe só há uma", vários sãos os filhos! Entre Jéssica e Pierre, uma descendência incontavelmente vasta e impossível de se ignorar e, sobretudo, rotular. A única coisa que se pode rotular nisso tudo é o Cinema Nacional como "tão plural que chega a ser singular...


Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 18 de julho de 2016


Abandonos sempre remetem, primeiramente, ao desleixo, à maldade, ou à fuga da responsabilidade. Mas na imensa maioria dos casos, abandona-se por julgar que o "objeto" deixado estará em melhores condições - por mais que isso doa, e por mais que, aos olhos dos outros, pareça um erro, ou até um crime... 

O filme Campo Grande, da cineasta Sandra Kogut, mostra diversos tipos de abandono focando no principal deles: duas crianças são deixadas pela mãe em frente a um prédio da zona sul do Rio, com a promessa de que "voltava logo". Com elas, apenas um papel onde vinha escrito o nome de uma das moradoras. Regina (Carla Ribas) está no meio de um furacão pessoal, onde seus abandonos são infinitamente mais importantes que aquele que acabara de cair de para-quedas sobre ela. Recém-separada, ela se prepara para deixar o apartamento onde vive, enquanto lida com a opção da filha em ir morar com o pai - evidenciando um abismo entre elas. E até um sofá de 3 lugares, do qual ela terá de se desfazer, pesa em seu momento. Quando o porteiro traz Rayane, de 5 anos, que chora copiosamente, Regina tenta resolver a situação de imediato. Como não consegue, apela até mesmo para sua empregada doméstica; mas uma chuva torrencial introduz a menina, e seu irmão mais velho, Ygor, de vez em sua vida. 

Campo Grande narra - de forma, a meu ver, um pouco cansativa às vezes, mas em nada vazia - a hecatombe que é quando se vê abandonado, ou tendo de abandonar o que mais se ama; e a mudança obrigatória - e tantas vezes descontrolada - que isso acarreta. O roteiro parece ter sido pego e depois "abandonado" no meio, o que me soou bastante proposital, e de encaixe perfeito. Partes da trama levam o espectador a deduzir o porquê de tal cena. E a última delas nos faz imaginar inúmeras outras na sequência. Acho isso ótimo, porque faz o espectador se desacomodar daquela máxima de que tudo em um roteiro tem de ser minimamente explícito ou explicado - algo com começo, meio e fim redondinhos... E para narrar abandonos, nada mais propício que abandonar logo de saída o excesso de personagens. Abandonou-se também o excesso de diálogos. Das cenas, geralmente longas, a maior parte traz muitas expressões e poucas palavras, e, por isso, dizem muito. E o caos de um Rio de Janeiro em obras torna-se a trilha sonora mais perfeita para todas aquelas mudanças bruscas às quais a obra se resume.

Sem saber o que fazer com as crianças, Regina e a filha, Lila (Julia Bernat), os deixam em um abrigo, mas Ygor consegue fugir e voltar à casa, pois crê que tem de estar lá quando sua mãe voltar. Provocada pela filha, Regina acaba levando o menino a Campo Grande, onde ele diz que sua avó mora, para tentar localizar a família, mas avisa: "se não acharmos, é daqui direto pro abrigo! Porta a porta! Entendeu?". 

A partir daí, os planos fechados em cada personagem, focando suas expressões e emoções, entregam o objetivo maior do filme: as relações e reações humanas. Tanto que demora-se a perceber outra mensagem subliminar que é o próprio cenário: a mudança vai limpando cada vez mais o ambiente. Primeiro, são caixas espalhadas; depois, pilhas delas; depois, vazios. A vida estava uma bagunça organizada, depois virou a bagunça desorganizada que expôs a realidade mascarada, e então foi-se esvaziando até não ter outro cenário possível senão a real mudança. E plano fechado exige dos atores talento e técnica. E isso é o que não falta no filme. Cada um em seu papel dá o melhor de si. Carla Ribas está impecável, e suas cenas com Ygor são, de longe, o melhor saldo da obra. 

Com a delicadeza e a sabedoria de que menos é mais, vemos um Campo Grande resumido a um plano fechado na relação entre uma mulher de classe média alta e uma criança pobre abandonada, que não poderia resultar senão no que se chama por aí vulgarmente de "resumo da ópera": TODOS CABEM em Regina e Ygor!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

~O Doador de Desejos~

E sempre naquela hora do dia, a campainha tocava. Era o carteiro. O remetente e o destinatário daqueles envelopes conviveram por 100 dias consecutivos. Um era o doido; o outro, o doído. E quando temporariamente trocaram de papel, o bizarro forasteiro entendeu o porquê do padecimento de seu hospedeiro, e resolveu ajudar... 

Aquele era um vilarejo sem anseios. Os que ali viviam já possuíam o que precisavam em matéria de subsistência básica; e ao longo dos anos, foram se acomodando e deixando até de reparar nas coisas que não lhes matavam a fome ou o frio. Até que após anos sem receberem alimento próprio e abrigo condizente, a fome de afeto e a necessidade de calor humano vieram com força. E eles já não sabiam sequer o que procurar para sanar este problema. Era um vilarejo de zumbis que tão somente respiravam, comiam, dormiam, se abrigavam... E tentavam conviver com aquele outro tipo de vazio e frio! 

"Que gosto seu beijo tem?", perguntou o forasteiro à primeira transeunte que viu. E precisou explicar-lhe logo em seguida o que era um beijo. "Então, é de feijão!", respondeu, explicando que essa foi a última coisa que havia comido. "Quer saber que gosto tem o meu?"... Mas ela apenas acenou uma negativa com a cabeça, virou-se e foi embora... Apatia!... Ele era tão diferente de todos ali que deveria minimamente chamar a atenção, mas nem isso. Sequer o desejo de olhá-lo, ou de questioná-lo, existia. E o fato de ter sido notado por um deles, e ter ainda um abrigo oferecido, acendeu nele a curiosidade: por que ao menos aquele homem não era apático??? 

Dono da padaria do vilarejo, o hospedeiro praticamente só vendia leite, pão, arroz e feijão; mas, de teimoso, seguia fabricando queijos, manteiga, salames, e também doces - especialmente os Sonhos e os Suspiros - e tentava, a todo custo, vendê-los aos clientes. Sem sucesso. Ao fim do dia, comia seu sanduíche especial, e de sobremesa, um doce. Mas a felicidade logo acabava quando ele tinha de jogar todo o resto fora... Sonhos e Suspiros! Só podia ser isso: o hospedeiro era o único ali que ainda conhecia algum prazer além da própria sobrevivência. Por isso, ainda conseguia reparar minimamente no Mundo ao seu redor. Mas a tristeza por ser o único ali a experimentar isso o dominava ao fim do dia. Até que caiu doente, não foi abrir a padaria, e as pessoas começaram a cair desmaiadas pelas ruas... O forasteiro viu ali uma oportunidade única para acabar com a letargia. Assumiu o estabelecimento - e, sobretudo, o restabelecimento da ordem.

"Mas, desse jeito, eu não tenho como pagar", se queixou um cliente diante da nova tabela de preços:

1L de leite - uma moeda, mais um sorriso 

2L ou mais - duas moedas e um abraço em alguém na fila 

1 pão - meia moeda, e um "bom dia"
(nessa semana, todos irão com manteiga)

2 pães ou mais - duas moedas e um barulhento beijo 
(nessa semana, vão com salame e fatia de queijo)

1kg de arroz - uma moeda e meia, e um aperto de mão

1kg de feijão - duas moedas e meia, e uma regra especial: 
só serão vendidos a duplas que estiverem de mãos dadas. 

À noite, brinde obrigatório: 
Ou um Suspiro ou um Sonho
(fica a gosto do freguês) 

"Estamos sob nova direção, rumo à direção certa!", afirmou o forasteiro, saboreando a satisfação de saber que os gostos iriam mudar de vez por ali. 

Nos primeiros dias, gestos forçados, desengonçados, faces demonstrando estranhezas, incômodos, mas nunca rebeldias. Obedecer era mais natural - e mais cômodo - que desobedecer. Precisavam comer, e fariam o que preciso fosse. Até que enfim, o "gerente" notou que as duplas que vinham buscar o feijão não eram mais as mesmas de sempre. O "bom dia!" vinha também daqueles que não estavam comprando pão. As escolhas entre o Sonho ou o Suspiro não eram mais automáticas. E os sorrisos apareciam antes mesmo de o pedido do leite ser feito no balcão, e perduravam após a compra concluída. Hora de reajustar a tabela, e tornar as coisas um pouquinho mais "caras"... 

"Comam Flores com os olhos, e regurgitem fotografias. Elas valerão um pão a mais na cesta". E aqueles objetos empoeirados, e até estragados, começaram a ser recuperados. Um mural foi se formando na parede da padaria, e admirado pelos clientes enquanto aguardavam na fila. As fotos também começaram a trazer crianças ao lado das plantas; e uma disputa sobre quem havia feito a melhor imagem era a razão dos sussurros naquele renque cotidianamente tão soturno. 

Ao voltar pra casa do hospedeiro, levando sempre seu sanduíche e seu doce, ele via que o sucesso da nova gerência fazia o amigo melhorar um pouco a cada dia. Até que naquela noite, ao chegar, já o encontrou sentado no banco da praça, aguardando ansioso não exatamente pela comida, mas pra saber qual havia sido a "promoção" do dia. E isso deu ao forasteiro uma grande ideia.

A padaria amanheceu fechada. E alguns, de nervoso, desmaiavam antes de ler a faixa na porta que dizia "Estaremos funcionando na Praça das Mangueiras! E tudo o que for comprado lá, deverá ser consumido ali mesmo!"... "Comeremos feijão cru?", indagou, confuso, um homem que portava ao menos umas 15 fotos nas mãos, almejando ganhar de brinde pão suficiente para a semana toda. Mas, não, nada cru! Havia ali pães frescos, pães com recheios, Sonhos, Suspiros, arroz e feijão já cozidos, e temperados; e mais incontáveis novidades... Pelo chão, toalhas coloridas espalhadas. E o homem das 15 fotos não precisou trocá-las por pães. Aliás, ele não quis trocá-las por nada, principalmente aquelas em que seu filho aparecia. 

Sem ser notado, em meio àquele convescote nada improvisado, o carteiro apareceu portando um telegrama. Era para o forasteiro...

E sempre naquela hora do dia, a campainha tocava. Era o carteiro... O forasteiro teve de partir, mas a cada dia mandava ao hospedeiro uma tabela de preços diferente. Foram 100 dias de convivência, e mais 100 dias de consultoria à distância. E ele sabia que àquela altura, todos já haviam despertado os próprios desejos. Os amigos já podiam se despedir. Ao invés de um telegrama, chegou uma carta.

"Sei que vocês já pegam frutas nos pé e fazem uma salada gigante aos sábados na praça 12. Sei que o despertador já desperta dor e causa raiva, e está terminantemente proibido aos fins de semana. Vocês já ouvem músicas, tomam banho no riacho das margaridas, fabricam sorvetes, reativaram o cinema, trocam cartas, leem livros, e fazem até concurso de fotografia. Sim, vocês já entenderam que nem só de pão, leite, arroz e feijão vive o Homem, e nem estocam mais nada no inverno pra poderem aproveitar a neve com os filhos... E se sei de tudo isso é porque até fofoca vocês reaprenderam a fazer, não é?... Eu cumpri minha missão. Até os desejos mais malucos eu sei que doei a vocês. Teu vizinho enlouqueceu com a ideia de querer ter olhos nas costas. O filho dele sobe em árvores e pula achando que assim vai aprender a voar... Eu sei, foi tudo às pressas, mas cumpri minhas ideias. Devolvi em versos cada palavra solta que ganhei. E como recompensa, vi na multidão um desejo que não reconhecia, pois nunca foi meu; mas que me foi doado... Escrevo para agradecer a profunda vontade que hoje tenho de agradecer por tudo! A Gratidão é sem dúvida o melhor dos presentes" 

O forasteiro só não contou que doou todas as suas vontades, exceto uma: ele sempre reteve o desejo de voltar àquele vilarejo, mas dessa vez pra ficar...