segunda-feira, 1 de agosto de 2016

~ O RAPTOR DE MOMENTOS ~


Naquela manhã, a árvore principal da praça do coreto trazia uma faixa inusitada. "Procura-se Os Pássaros. Pago bem!". A delegada titular do minusculicípio de Chascona não entendeu nada. Havia pássaros voando por todo lugar, e não parecia que o número deles havia diminuído. "É meu livro, autografado, que sempre estava comigo na bolsa. Foi presente do meu falecido esposo", afirmou a chorosa moça que já a esperava na delegacia para registrar o furto. E o dia transcorreu às queixas numerosas, e de todos os tipos: ocorrência de furtos de urso de pelúcia, fotografia de lambe-lambe, disco de vinil, imã de geladeira, vidro de perfume, agenda colorida cheia de ingressos de cinemas, teatros, shows; e até de blogs invadidos e bloqueados na internet. Mas nada disso se comparava à queixa que viria no dia seguinte, e para a qual ela não estava minimamente preparada.

_ Ele invadiu meu sonho e me roubou inúmeras memórias, Doutora. A Senhora precisa acreditar em mim, e me ajudar!

Aquele não era um homem qualquer, era seu próprio pai! E gozava de uma saúde de ferro, além de ter uma memória invejável. Não era possível que da noite para o dia ele estivesse desenvolvendo um processo de demência senil num estágio já tão avançado. Experiente que era, resolveu dar ao pai o benefício da dúvida, ainda que aquilo não lhe parecesse minimamente plausível. 

_ Como o Senhor sabe que teve memórias roubadas se uma vez que elas são apagadas, a gente passa a nem saber que existiam??? 

_ Porque eu sei que você é minha filha!!! Mas aí veio aquele homem e foi levando as lembranças do seu nascimento, de sua infância, e de todos os momentos que houve até você fazer 20 anos... Eu tentei acordar antes para impedi-lo, mas não consegui. Tentei adormecer de novo depois, para persegui-lo, mas também não consegui. Preciso de seu trabalho de investigação, Doutora. Não tenho a quem apelar!

Soava óbvio que seu pai estava perdendo a memória, mas se ele acreditava que poderia reverter isso daquela maneira fantasiosa, ela, por amor, embarcou na dele.

_ O Senhor seria capaz de realizar um retrato falado do homem que... Bem, do homem que "invadiu" seu sonho e roubou as memórias?

A retratista fora chamada, e em minutos o rosto do raptor era construído. A delegada não reconhecia nele nenhum dos moradores da tão pequena e pacata cidade, mas teve a forte sensação de já haver visto aquele homem antes. Definitivamente, não se tratava de um estranho qualquer, e muito provavelmente era esse o responsável pelos demais sumiços misteriosos. 

Os detetives saíram a campo em busca das lembranças físicas dos momentos tão importantes das vidas das vítimas; e de pistas quanto ao paradeiro do meliante. A cidade estava apática. Pessoas portando ausências em bolsas e bolsos, carregando faces tristes e arrastando corpos em abandono. De vítimas a investigadores, todos os olhares estavam perdidos. Aquele foi um dia intenso, que pareceu ter tido bem mais de 24 horas. A delegada entrou em casa exausta e tendo de lidar ainda com mais uma frieza: a janela da cozinha tinha, estranhamente, sido esquecida aberta. O banho bem quente e o edredom se tornaram ainda mais urgentes. Tudo o que ela mais queria e precisava era relaxar debaixo das cobertas e pôr a cabeça no lugar para encontrar pistas conclusivas... E encontrou!!! 

A janela tinha sido aberta por fora. E o raptor deixou em sua cama o ursinho de pelúcia. Em uma busca rápida, a delegada encontrou em sua casa vários outros objetos furtados. Mas foi o que ela não encontrou ali que a fez entender todo o caso. Seu álbum de fotos estava caído no chão, aberto na página central, e faltando a foto maior, a de destaque. No lugar dela, a foto da Cachoeira do Zyuhlollém, ponto turístico próximo à Chascona; com uma mancha de sangue no meio. 

Não dava para esperar amanhecer. Ela reuniu toda a equipe e adentraram a trilha. A cada metro, os cães farejadores achavam um a um os pertences sentimentais dos moradores, espalhados de modo a despistar os homens pela mata. E quando o barulho da cachoeira já podia ser ouvido, ela ordenou que, dali pra frente, seguiria só... 

Deitado, quase sem vida, cercado do próprio sangue, estava o raptor, que segurava um papel em suas mãos. Aquele era o homem do retrato-falado de seu pai. O homem presente na fotografia levada. O homem que a amou loucamente desde a infância, mas que ela tinha apenas como um colega de escola e faculdade. Aquele era o homem que ela abandonou anos atrás sem sequer imaginar que estaria abandonando... Era tarde demais para chamar o socorro. Seus últimos espasmos indicavam que ele queria que ela lesse aquela carta. E mais do que isso: ele queria que ao menos ali ela permanecesse ao seu lado. 

"Eu tinha tantas coisas a te oferecer... Eu te daria um café com chantilly a qualquer hora do dia, e um cafuné molhado quando invadisse seu mergulho na nossa cachoeira. Eu te daria livros roubados, te colocaria clandestinamente naquela sala de cinema proibida pra menores, e te daria explicações científicas inventadas na hora só pra amansar suas dúvidas. Eu trocaria as notícias ruins dos jornais só para você não descobrir o lado feio do Mundo. Eu te daria risadas sem motivo algum, a serem celebradas com sorvete de morango com calda de chocolate quente. Eu passaria as noites transformando seus roncos em clássicas sinfonias a serem premiadas. Eu te daria uma queima de fogos em seus aniversários, e total imunidade ao Tempo, transformando suas rugas em meras impressões digitais nos meus dedos toda vez que eles as acariciassem. Eu queria fabricar um perfume que só grudasse em você, e que só eu sentisse, e a qualquer distância; e te tirar pra uma dança ao luar, dentro daquele vestido rodado sempre exposto na vitrine que você tanto adora. Eu queria abrir trilhas e espalhar pistas sobre elas só pra ver o seu prazer em investigar. Queria dividir com você os rascunhos dos meus sonhos pra você os aprimorar; e te dar tantas letras e vírgulas pra ver você brincar com elas formando palavras, frases, páginas, cartas de um Amor sem fim... Mas você partiu bem antes, e me levou tudo! E fiquei sem nada a oferecer nem mesmo a mim.

A Delegada fechou-lhe os olhos, cobriu seu corpo, e orou a Deus para que, onde quer que ele estivesse, ele se lembrasse de cada momento especial que planejou, e se esquecesse da Dor de não ter vivido um único sequer...

sábado, 23 de julho de 2016

~MÃE - e Gênia! - SÓ HÁ UMA~
"É pela obra que se conhece o autor" 
Jean de la Fontaine, poeta e fabulista francês, nascido em 1621

E é num ditado popular que enfim se consolidam não só a obra, mas principalmente sua autora. Não, eu não me refiro à máxima "Mãe só há uma", e sim à "água mole em pedra dura, tanto bate até que fura!". 

Anna Muylaert chegou ao mundo horas depois do golpe militar se instalar no Brasil (nasceu em 21 de abril de 1964). E como se já não bastasse nascer num país privado de liberdade, nasceu Mulher em uma sociedade altamente machista; mas ignorou esses "detalhes" e foi galgando seu espaço num esmerado trabalho de formiguinha... Não coincidentemente, sua fama e notoriedade chegaram de vez através de seu trabalho mais popular - no duplo sentido! - cujo título hoje é símbolo da luta pela resistência democrática. Em "Que horas ela volta?", Anna denuncia o Brasil segregacionista, desmascarando essa grande fatia do passado ainda presente para que ele não seja futuro. E o Machismo, ela combate se tornando membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e anunciando ser este tema o foco de seu próximo longa, ainda em fase embrionária. "Não sei ainda como será abordado, mas quero que as mulheres saiam do cinema pensando 'como eu pude sempre aceitar isso?', e os homens saiam envergonhados pensando 'como eu pude sempre praticar isso?'", afirmou a cineasta durante o debate pós-exibição de sua recente obra em Brasília, na noite de 22/07, evento do qual tive o prazer de participar ativamente. 

Ao contrário de "Que horas ela volta?", em "Mãe só há uma", o social fica em segundo plano, dando ao íntimo/pessoal um espaço de pleno destaque - a começar pelo plano fechado da câmera em seus personagens e ambientes, escancarando pessoalidades e particularidades. Livremente inspirado na história real do sequestro do menino Pedro Braule Pinto (o Pedrinho), tirado da maternidade em Brasília em 1986 por Vilma Martins (que ainda sequestrou outra criança anos antes), Anna apresenta ao público um adolescente que vê sua vida desmoronar da noite pro dia quando é informado que não fora adotado, mas sim roubado, e sua família biológica chega de súbito para levá-lo ao seu "verdadeiro lar". Essa mudança brutal assume o protagonismo quando o que de fato estava em evidência era seu processo de transição de gênero, a busca pela sua identidade sexual; um processo que, aliás, acontecia em total privacidade, mas que fora içado a fórceps quando Pierre passou a ser Felipe, o filho idealizado por uma família de classe média alta tão engessada pelas convenções que precisava "encaixá-lo" nelas.

Nada, absolutamente nada neste roteiro - de característica aberta - é acaso ou coincidência. Ao título, Anna faz jus dando à mesma atriz, Dani Nefussi, o papel de ambas as mães, nos remetendo à outra máxima bem popular que diz que "mãe é tudo igual, só muda de endereço". Como nada é mais clichê que ditados populares, então, pode-se esperar um filme repleto deles, certo? Errado!!! Trazendo apenas uma figura realmente famosa e conhecida do grande público, que é Matheus Nachtergaele, de personagem homônimo; a obra já aí é um desmanche de todos os rótulos. Quem tentar, por exemplo, rotular a sexualidade de Pierre pode acabar maluco; assim como esperar que todas as cenas tragam uma justificativa para a cena anterior e um prenúncio para a seguinte. Tendo como ponto de vista o conflito do protagonista, a narração é fiel às lacunas que sufocam o adolescente - lacunas essas que serão preenchidas pelo público, já que o filme não julga, portanto, não explica e nem define nada!

Um filme de baixo orçamento, com caráter tão doméstico, chega pra contrastar o sucesso anterior em tudo, exceto no sucesso em si. É óbvio que muitos irão ao cinema esperando várias semelhanças entre os "filhos" só porque a Mãe é a mesma (ou seria melhor dizer "as mães"?), mas fora a qualidade geral da produção - de excelente elenco e ótima exposição da temática proposta -, não esperem ver na rebeldia de Pierre uma continuação daquela presente em Jéssica. Porque enquanto uma gritou por tantos, o outro grita por si! Dois lados de uma mesma moeda que mostra o preço que pagamos quando o social entra em cena pra simplesmente padronizar o pessoal ao invés de compreendê-lo, e, sobretudo, aceitá-lo.

E enquanto "Mãe só há uma", vários sãos os filhos! Entre Jéssica e Pierre, uma descendência incontavelmente vasta e impossível de se ignorar e, sobretudo, rotular. A única coisa que se pode rotular nisso tudo é o Cinema Nacional como "tão plural que chega a ser singular...


Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 18 de julho de 2016


Abandonos sempre remetem, primeiramente, ao desleixo, à maldade, ou à fuga da responsabilidade. Mas na imensa maioria dos casos, abandona-se por julgar que o "objeto" deixado estará em melhores condições - por mais que isso doa, e por mais que, aos olhos dos outros, pareça um erro, ou até um crime... 

O filme Campo Grande, da cineasta Sandra Kogut, mostra diversos tipos de abandono focando no principal deles: duas crianças são deixadas pela mãe em frente a um prédio da zona sul do Rio, com a promessa de que "voltava logo". Com elas, apenas um papel onde vinha escrito o nome de uma das moradoras. Regina (Carla Ribas) está no meio de um furacão pessoal, onde seus abandonos são infinitamente mais importantes que aquele que acabara de cair de para-quedas sobre ela. Recém-separada, ela se prepara para deixar o apartamento onde vive, enquanto lida com a opção da filha em ir morar com o pai - evidenciando um abismo entre elas. E até um sofá de 3 lugares, do qual ela terá de se desfazer, pesa em seu momento. Quando o porteiro traz Rayane, de 5 anos, que chora copiosamente, Regina tenta resolver a situação de imediato. Como não consegue, apela até mesmo para sua empregada doméstica; mas uma chuva torrencial introduz a menina, e seu irmão mais velho, Ygor, de vez em sua vida. 

Campo Grande narra - de forma, a meu ver, um pouco cansativa às vezes, mas em nada vazia - a hecatombe que é quando se vê abandonado, ou tendo de abandonar o que mais se ama; e a mudança obrigatória - e tantas vezes descontrolada - que isso acarreta. O roteiro parece ter sido pego e depois "abandonado" no meio, o que me soou bastante proposital, e de encaixe perfeito. Partes da trama levam o espectador a deduzir o porquê de tal cena. E a última delas nos faz imaginar inúmeras outras na sequência. Acho isso ótimo, porque faz o espectador se desacomodar daquela máxima de que tudo em um roteiro tem de ser minimamente explícito ou explicado - algo com começo, meio e fim redondinhos... E para narrar abandonos, nada mais propício que abandonar logo de saída o excesso de personagens. Abandonou-se também o excesso de diálogos. Das cenas, geralmente longas, a maior parte traz muitas expressões e poucas palavras, e, por isso, dizem muito. E o caos de um Rio de Janeiro em obras torna-se a trilha sonora mais perfeita para todas aquelas mudanças bruscas às quais a obra se resume.

Sem saber o que fazer com as crianças, Regina e a filha, Lila (Julia Bernat), os deixam em um abrigo, mas Ygor consegue fugir e voltar à casa, pois crê que tem de estar lá quando sua mãe voltar. Provocada pela filha, Regina acaba levando o menino a Campo Grande, onde ele diz que sua avó mora, para tentar localizar a família, mas avisa: "se não acharmos, é daqui direto pro abrigo! Porta a porta! Entendeu?". 

A partir daí, os planos fechados em cada personagem, focando suas expressões e emoções, entregam o objetivo maior do filme: as relações e reações humanas. Tanto que demora-se a perceber outra mensagem subliminar que é o próprio cenário: a mudança vai limpando cada vez mais o ambiente. Primeiro, são caixas espalhadas; depois, pilhas delas; depois, vazios. A vida estava uma bagunça organizada, depois virou a bagunça desorganizada que expôs a realidade mascarada, e então foi-se esvaziando até não ter outro cenário possível senão a real mudança. E plano fechado exige dos atores talento e técnica. E isso é o que não falta no filme. Cada um em seu papel dá o melhor de si. Carla Ribas está impecável, e suas cenas com Ygor são, de longe, o melhor saldo da obra. 

Com a delicadeza e a sabedoria de que menos é mais, vemos um Campo Grande resumido a um plano fechado na relação entre uma mulher de classe média alta e uma criança pobre abandonada, que não poderia resultar senão no que se chama por aí vulgarmente de "resumo da ópera": TODOS CABEM em Regina e Ygor!

segunda-feira, 11 de julho de 2016

~O Doador de Desejos~

E sempre naquela hora do dia, a campainha tocava. Era o carteiro. O remetente e o destinatário daqueles envelopes conviveram por 100 dias consecutivos. Um era o doido; o outro, o doído. E quando temporariamente trocaram de papel, o bizarro forasteiro entendeu o porquê do padecimento de seu hospedeiro, e resolveu ajudar... 

Aquele era um vilarejo sem anseios. Os que ali viviam já possuíam o que precisavam em matéria de subsistência básica; e ao longo dos anos, foram se acomodando e deixando até de reparar nas coisas que não lhes matavam a fome ou o frio. Até que após anos sem receberem alimento próprio e abrigo condizente, a fome de afeto e a necessidade de calor humano vieram com força. E eles já não sabiam sequer o que procurar para sanar este problema. Era um vilarejo de zumbis que tão somente respiravam, comiam, dormiam, se abrigavam... E tentavam conviver com aquele outro tipo de vazio e frio! 

"Que gosto seu beijo tem?", perguntou o forasteiro à primeira transeunte que viu. E precisou explicar-lhe logo em seguida o que era um beijo. "Então, é de feijão!", respondeu, explicando que essa foi a última coisa que havia comido. "Quer saber que gosto tem o meu?"... Mas ela apenas acenou uma negativa com a cabeça, virou-se e foi embora... Apatia!... Ele era tão diferente de todos ali que deveria minimamente chamar a atenção, mas nem isso. Sequer o desejo de olhá-lo, ou de questioná-lo, existia. E o fato de ter sido notado por um deles, e ter ainda um abrigo oferecido, acendeu nele a curiosidade: por que ao menos aquele homem não era apático??? 

Dono da padaria do vilarejo, o hospedeiro praticamente só vendia leite, pão, arroz e feijão; mas, de teimoso, seguia fabricando queijos, manteiga, salames, e também doces - especialmente os Sonhos e os Suspiros - e tentava, a todo custo, vendê-los aos clientes. Sem sucesso. Ao fim do dia, comia seu sanduíche especial, e de sobremesa, um doce. Mas a felicidade logo acabava quando ele tinha de jogar todo o resto fora... Sonhos e Suspiros! Só podia ser isso: o hospedeiro era o único ali que ainda conhecia algum prazer além da própria sobrevivência. Por isso, ainda conseguia reparar minimamente no Mundo ao seu redor. Mas a tristeza por ser o único ali a experimentar isso o dominava ao fim do dia. Até que caiu doente, não foi abrir a padaria, e as pessoas começaram a cair desmaiadas pelas ruas... O forasteiro viu ali uma oportunidade única para acabar com a letargia. Assumiu o estabelecimento - e, sobretudo, o restabelecimento da ordem.

"Mas, desse jeito, eu não tenho como pagar", se queixou um cliente diante da nova tabela de preços:

1L de leite - uma moeda, mais um sorriso 

2L ou mais - duas moedas e um abraço em alguém na fila 

1 pão - meia moeda, e um "bom dia"
(nessa semana, todos irão com manteiga)

2 pães ou mais - duas moedas e um barulhento beijo 
(nessa semana, vão com salame e fatia de queijo)

1kg de arroz - uma moeda e meia, e um aperto de mão

1kg de feijão - duas moedas e meia, e uma regra especial: 
só serão vendidos a duplas que estiverem de mãos dadas. 

À noite, brinde obrigatório: 
Ou um Suspiro ou um Sonho
(fica a gosto do freguês) 

"Estamos sob nova direção, rumo à direção certa!", afirmou o forasteiro, saboreando a satisfação de saber que os gostos iriam mudar de vez por ali. 

Nos primeiros dias, gestos forçados, desengonçados, faces demonstrando estranhezas, incômodos, mas nunca rebeldias. Obedecer era mais natural - e mais cômodo - que desobedecer. Precisavam comer, e fariam o que preciso fosse. Até que enfim, o "gerente" notou que as duplas que vinham buscar o feijão não eram mais as mesmas de sempre. O "bom dia!" vinha também daqueles que não estavam comprando pão. As escolhas entre o Sonho ou o Suspiro não eram mais automáticas. E os sorrisos apareciam antes mesmo de o pedido do leite ser feito no balcão, e perduravam após a compra concluída. Hora de reajustar a tabela, e tornar as coisas um pouquinho mais "caras"... 

"Comam Flores com os olhos, e regurgitem fotografias. Elas valerão um pão a mais na cesta". E aqueles objetos empoeirados, e até estragados, começaram a ser recuperados. Um mural foi se formando na parede da padaria, e admirado pelos clientes enquanto aguardavam na fila. As fotos também começaram a trazer crianças ao lado das plantas; e uma disputa sobre quem havia feito a melhor imagem era a razão dos sussurros naquele renque cotidianamente tão soturno. 

Ao voltar pra casa do hospedeiro, levando sempre seu sanduíche e seu doce, ele via que o sucesso da nova gerência fazia o amigo melhorar um pouco a cada dia. Até que naquela noite, ao chegar, já o encontrou sentado no banco da praça, aguardando ansioso não exatamente pela comida, mas pra saber qual havia sido a "promoção" do dia. E isso deu ao forasteiro uma grande ideia.

A padaria amanheceu fechada. E alguns, de nervoso, desmaiavam antes de ler a faixa na porta que dizia "Estaremos funcionando na Praça das Mangueiras! E tudo o que for comprado lá, deverá ser consumido ali mesmo!"... "Comeremos feijão cru?", indagou, confuso, um homem que portava ao menos umas 15 fotos nas mãos, almejando ganhar de brinde pão suficiente para a semana toda. Mas, não, nada cru! Havia ali pães frescos, pães com recheios, Sonhos, Suspiros, arroz e feijão já cozidos, e temperados; e mais incontáveis novidades... Pelo chão, toalhas coloridas espalhadas. E o homem das 15 fotos não precisou trocá-las por pães. Aliás, ele não quis trocá-las por nada, principalmente aquelas em que seu filho aparecia. 

Sem ser notado, em meio àquele convescote nada improvisado, o carteiro apareceu portando um telegrama. Era para o forasteiro...

E sempre naquela hora do dia, a campainha tocava. Era o carteiro... O forasteiro teve de partir, mas a cada dia mandava ao hospedeiro uma tabela de preços diferente. Foram 100 dias de convivência, e mais 100 dias de consultoria à distância. E ele sabia que àquela altura, todos já haviam despertado os próprios desejos. Os amigos já podiam se despedir. Ao invés de um telegrama, chegou uma carta.

"Sei que vocês já pegam frutas nos pé e fazem uma salada gigante aos sábados na praça 12. Sei que o despertador já desperta dor e causa raiva, e está terminantemente proibido aos fins de semana. Vocês já ouvem músicas, tomam banho no riacho das margaridas, fabricam sorvetes, reativaram o cinema, trocam cartas, leem livros, e fazem até concurso de fotografia. Sim, vocês já entenderam que nem só de pão, leite, arroz e feijão vive o Homem, e nem estocam mais nada no inverno pra poderem aproveitar a neve com os filhos... E se sei de tudo isso é porque até fofoca vocês reaprenderam a fazer, não é?... Eu cumpri minha missão. Até os desejos mais malucos eu sei que doei a vocês. Teu vizinho enlouqueceu com a ideia de querer ter olhos nas costas. O filho dele sobe em árvores e pula achando que assim vai aprender a voar... Eu sei, foi tudo às pressas, mas cumpri minhas ideias. Devolvi em versos cada palavra solta que ganhei. E como recompensa, vi na multidão um desejo que não reconhecia, pois nunca foi meu; mas que me foi doado... Escrevo para agradecer a profunda vontade que hoje tenho de agradecer por tudo! A Gratidão é sem dúvida o melhor dos presentes" 

O forasteiro só não contou que doou todas as suas vontades, exceto uma: ele sempre reteve o desejo de voltar àquele vilarejo, mas dessa vez pra ficar...

terça-feira, 5 de julho de 2016

O Filme "CASEIRO" 
mais profissional que já vi!


Eu sei que às vezes sou acusada de ufanista/xenofóbica, e que, por isso, sempre protejo tudo que é local. Não. Procuro ser justa, e nunca levo em conta simplesmente a nacionalidade pra decidir se defendo ou ataco algo - e nem mesmo se assisto ou não. Mas, sim, quando ouço que nosso cinema "ainda tem muito o que aprender com Hollywood", me relo nas ventas com a moléstia do cachorro louco! Mas simplesmente porque cada um é cada um. Hollywood tem um estilo (ou vários estilos dentro dele), o cinema europeu tem outro(s); o indiano, outro; o latino-americano... O africano... O asiático... Assim como o cinema brasileiro! E em todos os estilos, erros e acertos. Eis o que têm em comum.  

Já vi produções estrangeiras excepcionais e produções nacionais tipo "vergonha alheia", E VICE-VERSA!!! E ultimamente, independente da nacionalidade, tenho sido seletiva quanto a gênero e temática. Comédia besteirol, eu evito. E suspense/terror, eu, se possível, vou logo na pré-estreia. Mas bons suspenses são produções mais presentes nos cinemas internacionais, então, quando li sobre O Caseiro, e vi o trailer, já vibrei por antecipação. Eu sabia que tinham de fazer um trabalho de roteiro muito, mas muito ruim mesmo pra estragar a coisa. E duvidava que isso pudesse acontecer. E duvidei certo...

Antes de assistir, procurei - mesmo sabendo que seria sugestionada, positiva ou negativamente - ler e ouvir muitas críticas a respeito. E foi então que, finalmente, entendi o porquê de me acusarem de ufanismo. Posso dizer que 90% das críticas que li deixavam clara essa visão de "o cinema nacional ainda engatinha". Quem engatinha, ainda, é uma boa parte do público/crítica, que parece não estar preparada - nem disposta a aceitar nossas produções sem preconceitos. Muitos já partem do pressuposto que "não vai prestar", e, quando vêem que sim, presta!, se mostram surpresos como quem vê uma raridade. Raridade nada! Há uns bons pares de anos que raro tem sido o filme realmente ruim. E O Caseiro, pra mim, chegou pra "lacrar geral" e confirmar isso.

Em um suspense, ou o roteiro é realmente bem escrito e bem amarrado, ou "Adeus!". E é ele quem suplanta as imperfeições técnicas que o filme carrega, a ponto de nada conseguir de fato invalidá-lo. Instigante, ele já se apresenta como um leque de caminhos, e todos plausíveis. Você tenta dizer "é assim", ou "não, é assado", ou ainda "nem assim, nem assado", e acha sentido pra qualquer um. É assim que ele te prende até o final, quando só então se tira a prova dos nove. O que mata é a tal comparação com thrillers hollywoodianos, porque, como disse no princípio, são estilos diferentes, e um não tem de copiar o outro. Então, quem espera sustos homéricos, a la Invocação do Mal, vai se decepcionar; mas ainda assim, não deixará de ver ótimas cenas tipicamente fantasmagóricas, tensas, e muito bem montadas, mesmo em um timing diferente também do esperado - afinal, o filme passa mais da metade focado no psicológico do que no terror sobrenatural em si.       

Bruno Garcia, que além de protagonista é produtor associado, mostra que não é simplesmente um galã. Na trama, ele é Davi, um professor da faculdade de Psicologia, que escreveu um livro sobre as aparições sobrenaturais através da psicanálise; e que é chamado por Renata (Malu Rodrigues) a ajudar a irmã, Júlia, que está sendo, aparentemente, atacada pelo fantasma do caseiro da família, que se matou anos antes na propriedade. Cético e científico, Davi decide investigar almejando escrever outro livro sobre o caso em questão, caso este lhe interesse.

Daí, entram em cena, primeiramente, o roteiro e a direção da dupla de jovens - e promissores - irmãos, Felipe e Julio Santi. O filme segue numa crescente, partindo do thriller psicológico até o desfecho quimérico (o tal do timing ao qual me referi acima). Vai do suspense ao terror numa costura precisa, sem a linha do clichê escancarado (eu disse "escancarado", porque clichês sutis sempre há)... Leopoldo Pacheco e Denise Weinberg são Rubens e Nora, pai e tia das meninas. Suas reações faciais e corporais dizem muito, mas sem entregar nada antecipadamente. Dá pra perceber que eles sabem mais que revelam, e não à toa são as peças-chave do desfecho. Assim como roteiro e direção, esses três atores são o ponto forte da trama. Já o elenco infanto-juvenil deixa um pouco a desejar nas cenas mais tensas. E a aparição relâmpago da médium confunde um pouco o espectador, pois sua expressão facial é um tanto maléfica que acaba levando a crer que ela seja a responsável por tudo, quando não é. Do jeito que ficou, pareceu dispensável sua aparição, bastando apenas as menções a ela feitas - ainda que suas presenças tenham trazido um ar de mistério e medo... Quanto à fotografia, é de fato incrível. Elementos como névoa, reflexos e vultos só são usados quando realmente necessários, e fazem a diferença, pois deixam no espectador a dúvida se aquela cena está se passando no Além ou no lado de cá... A trilha sonora, confesso, me passou batido. Estou, nesse quesito, tipo a Glória Pires na apresentação do Oscar: "Não posso opinar!" (mas, se tivesse sido um problema, acredito que eu a notaria, então, ponto positivo).  

O Caseiro mostra bem o que falta ao cinema nacional: boa vontade do público em apreciá-lo sem preconceitos. Não faltam às produções nacionais mais "esmero" e "qualidade", como muito se afirma por aí. Não. Isso, temos de sobra. Falta quem acredite, apoie e incentive esse mercado. Falta quem o trate do mesmo modo que os demais são tratados. Sempre haverá filmes falhos e filmes impecáveis em qualquer idioma. Aqui não é diferente. E a julgar pelos últimos anos, quem souber ser receptivo terá inúmeras surpresas e grandes satisfações. 

Comecem por O Caseiro. E passem também por Nise - O coração da loucura, por Flores Raras, por Que Horas Ela Volta?, por Isolados, por Lavoura Arcaica, Central do Brasil, Terra em Transe, Terra Estrangeira, Abril Despedaçado, Bicho de Sete Cabeças, Dona Flor e seus Dois Maridos, O Auto da Compadecida, e... Se eu continuar, não saio mais daqui (embora deseje exatamente isso!). 

Até a próxima, e boa sessão a todos!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

~O Aniquilador de Prantos~


Sempre ao pôr do sol da última sexta-feira de cada mês, na praça da Torre do Curador... Era ali que a multidão, seca e emudecida, se prostrava diante do Governa-DOR. Era um homem sisudo e teso, autoridade máxima do povoado, o autoescolhido para lidar, sozinho, com o padecimento e suas consequências. Aquele que um dia, por decreto, aniquilou o pranto e o grito para impedir o povo de sofrer; e assim se tornou um herói, um verdadeiro Deus!

Cada um ali emanava mentalmente suas dores - fossem quais fossem - para que ele as chorasse e gritasse em seus nomes. Eram idosos, adultos, jovens, e até crianças, exceto bebês, que ficavam trancados no "cômodo do incômodo" - o porão onde esgoelavam sem serem ouvidos, pois, se ouvidos, seriam sacrificados por afronta ao poder do Governa-DOR; posto que só lhes era permitido chorar no momento em que nasciam, e nunca mais.

Em posição de sentido, e com olhos fixos na torre, a multidão o assistia ir do gemer ao soluçar ininterruptamente, até a noite cair totalmente e a escuridão reinar. Quando o silêncio retornava, as tochas das ruas eram acesas, e a figura do líder não mais podia ser vista. E todos seguiam às suas casas, onde mães alimentavam os bebês tratando de cessar suas sonoras revoltas. E cada um se preparava para o próximo ciclo.

Até que muito antes do novo pôr-do-sol, um choro forte, e especial, era esperado por todos. O trabalho de parto havia começado. A esposa real estava prestes a ter o primeiro filho, e seu choro ecoaria da Torre do Curador a anunciar a boa nova: eis o sucessor!!! Era certo que todos seguiriam incólumes. Não havia mais por que temer a morte de seu comandante-salvador, posto que não ficariam sem consolo.

...Mas as horas iam passando... A esposa real se contorcia na cama sem dar um gemido sequer... Cerrava os olhos, prendia o fôlego, rasgava os lençóis... Sem lágrimas, sem gritos, e sem sucesso... A dor a consumiu. Seu filho não saiu. Ela sucumbiu!

O choro forte que todos esperavam ouvir vindo da Torre não foi o que de fato ouviram. Todos ali se deram conta do óbvio: o Governa-DOR aniquilou os efeitos, e não as causas. Ele tornou interno e particular o flagelo, e não exatamente exclusivo seu. Ele não era um herói. Não era um Deus. Era um algoz!!! Era o juiz apocalíptico que sentenciou seu povo ao suplício silencioso, e, portanto, eterno. Um dita-DOR da Força Reversa, que obrigou todos a um esforço diário sobre-humano para reter a Dor dentro de si.

A dor do Governa-DOR, ali, era somente dele. Ele chorava e gritava por ninguém mais senão por si. E era o único a experienciar a maior de todas as dores: a Culpa. E quando o mais forte berra, os mais fracos se rendem... O que era pra ser só um choro, não foi um choro só. Todos os olhos se deixaram umedecer. Todas as bocas se abriam em gritos. E decretou-se, naturalmente, a Compaixão.

Naqueles dias seguintes, de luto oficial, o Condor, pássaro mensageiro do reino, sobrevoou cada casa a espalhar a nova carta magna, que assim dizia:

"Que se reaja, enfim, à Dor, e não mais contra ela. Pois o que dói, só dói assim por estar retido em uma cela. Se dói é porque tem de sair, e só para de doer quando sai. É deixar doer uma vez pra não doer mais... E estabeleço-vos a Paz!"

E foi então que o Governa-DOR tornou-se, simplesmente, o Desembarga-DOR!

domingo, 15 de maio de 2016

O dia em que a Humanidade conheceu sua biógrafa, Nise da Silveira

(ATENÇÃO: contém Spoiler)

Nos últimos dias, um conflito me ditou a rotina... Acompanhar os trabalhos de Glória Pires sempre foi uma obrigação prazerosa (ou um prazer obrigatório, que seja, tanto faz!), mas Nise - O Coração da Loucura seria pra mim algo não restrito à ficção, e sim pessoal e doloroso além da conta. Só que aprendi que os medos existem para serem enfrentados, porque é daí que vêm nossas melhores recompensas e os maiores aprendizados. Dito e feito!

Primeiramente, o nome já responde por mais da metade de seu conteúdo. Chamá-lo de Coração da Loucura é esclarecer logo de saída que Loucura nunca foi sinônimo nem de maldade, nem muito menos de alienação. Coração é a casa elucidativa do Amor e dos Sentimentos - que também, estes, nunca foram antônimo de Razão, portanto, conceitualmente falando, a Loucura é tão somente um modo divergente do que a Sanidade se vale para expressar as tantas Razões que nos compõem. É tão somente um outro idioma, que poucos são capazes de interpretar e, portanto, estabelecer um diálogo.

Após toda essa antecipação da temática dada pelo título, a primeira e a segunda cenas, sozinhas, tratam de entregar todo o resto. Em plano fechado, vemos os portões do Hospital Psiquiátrico Pedro II, em Engenho de Dentro/RJ, no ano de 1944. É uma estrutura visivelmente precária a refletir com precisão o abandono e o descaso que residem e resistem atrás dele. É quando Nise da Silveira, médica alagoana, chega para seu primeiro dia de trabalho após sair da prisão onde ficou por 7 anos, denunciada por "prática de comunismo" porque possuía livros de Marx em casa. Ela bate no portão pra se anunciar. Sem sucesso, bate de novo mais forte. Ainda ignorada, bate com intensidade progressiva até finalmente ser atendida e levada ao congresso que acontecia ali. Já se via tratar-se de uma mulher que se impõe e não desiste facilmente. Na cena seguinte, vemos Nise ser encarada por todos com frieza e reprovação ao entrar no evento acadêmico, já em andamento; e a razão para tal era bem simples: ela era a única mulher ali. Ao ser apresentada às técnicas de lobotomia e eletrochoque, Nise se chocou e se recusou a aplicá-las. A partir dali, estava claro: veríamos a narrativa de uma mulher que teve a ousadia de enfrentar Homens e Paradigmas para tratar as enfermidades mentais não mais pelo castigo físico, e sim pelo afagar da alma... E foi justamente o castigo que recebeu pela insubordinação a ferramenta que tanto precisava pra realizar o que propôs: chefiar o então sucateado e desacreditado STO - Setor de Terapêutica ocupacional. 


Nomes, Histórias, Desejos, Vontades, Murmurações indecifráveis... Nise passa a "observar e ouvir", dando espaço e liberdade a cada um dos seus "clientes" - como chama os enfermos, pois "pacientes" devem ser ela e sua equipe no trato com aqueles para os quais estão prestando um serviço. É a partir daí que a médica capaz de tirar do confinamento Lúcio (magistralmente interpretado por Roney Villela), considerado perigoso e irrecuperável; e que improvisa uma bola usando o pé de uma de suas meias para interagir com aqueles que até então eram desprovidos de atenção mínima; começa a mudar não apenas a vida de Lúcio e de Carlinhos (Júlio Adrião), Adelina (Simone Mazzer), Emidgio (Carlos Jaborandy), Rafael (Bernardo Marinho) e Fernando (Fabrício Boliveira), mas também da própria equipe. Tendo inicialmente apenas o apoio da enfermeira Ivone (Roberta Rodrigues), ela vê o enfermeiro Lima (Augusto Madeira) passar de um brutamontes violento - que organizava confrontos entre os doentes para fazer apostas com colegas - a um real colaborador da terapêutica. Além dele, Nise arrebanhou o apoio substancial do médico Almir (Felipe Rocha), que, interessado em artes plásticas, propõe usar a pintura como atividade, e leva para estagiar no local a amiga Marta (Georgiana Góes), estudante de artes, que se torna peça importante na recuperação de um dos pacientes. 

De pintura à escultura, passando pela música e também pelo uso de animais, os resultados vão aparecendo; e com eles, aparecem também os conflitos... Os enfrentamentos entre Nise e a equipe do hospital são o que dá o tom da metade final do filme, e onde as interpretações já marcantes atingem seus ápices. Humanidade é exatamente o que vemos nesse filme do começo ao fim, muito bem diluída e espalhada no roteiro, feito a 7 mãos; no elenco indefectível; na trilha sonora e na fotografia atenuantes; e na direção absolutamente precisa (de precisão, e de necessária) de Roberto Berliner, conhecido documentarista de A Pessoa é para o que Nasce e Hebert de perto. Humanidade é exatamente o que suaviza toda a dor e a angústia que a história carrega, imergindo o espectador completamente na trama sem deixá-lo experienciar o lado ruim mais profundamente a ponto de sofrer junto. Ao contrário. Encontra-se, sem muita dificuldade, a beleza e até mesmo o riso passeando pelo espaço. Nada nessa película está dissonante. E Glória Pires, que pensei que depois de Flores Raras (leia a crítica deste filme aqui) não pudesse se superar, me fez pintar um novo quadro seu, numa aula especial que, felizmente, decidi encarar. Eis a recompensa, e o aprendizado! E aqui recomendo que todos corram atrás do mesmo prêmio. 

Nise - O Coração da Loucura é mais uma prova inconteste de que a Arte é mesmo a única capaz de contar qualquer história, posto que não há barreira idiomática, cultural ou intelectual que ela não seja capaz de transpor. E a lição que fica é, de longe, a coisa mais importante aqui: enfim se explicou que, linguagens à parte, a real diferença entre a Sanidade e a Loucura é tão somente o Olhar de Amor que cada uma é capaz de emanar, e absorver.

Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 25 de abril de 2016

~Fazendo Amor em público~

Piscadas de olhos recíprocas. Mãos dadas sem trégua; e as livres, construindo Sentimentos artesanalmente, fio a fio, por entre os cabelos que já conhecem bem. Braços sobre os ombros, e pernas a se esbarrarem propositadamente embaixo das mesas. Um canudo sendo dividido, o mesmo picolé sendo mordido, e suas gotas coloridas sendo enxugadas rapidamente antes que caíssem nas roupas. Era a bolsa sobre o colo enquanto ela ia ao banheiro. Era a espera de horas enquanto ela provava o novo vestido... Era aquele Amor de Consumo, que diz que "com você, é o sumo; e sem você, eu sumo"... Era aquele Amor de Minuto, que o relógio deixava confuso, pois, com ou sem fuso, o Tempo só ficava diminuto... Era aquele Amor concorrido, que corria pelos corredores, e entrava e saía do ar-condicionado, suando de qualquer maneira; naquele caos suave, que mais parecia uma dança de criança, uma brincadeira... Era aquele Amor de Cinema, que se paga pra ver, espera o tempo que for, e tem clareza mesmo na escuridão... Era aquele Amor de Livraria, que se tocava e se lia, que se bebia e comia... Era a multidão de dois, perdidos na singularidade de mil... O Código Penal não previu. Nenhum segurança descobriu... Mas, sem sair da rotina, fizeram Amor em Público, e todo mundo sentiu!!!

sexta-feira, 18 de março de 2016

~SÍNDROMES POÉTICAS~

Há síndromes que só acometem Poetas! Uma delas é a Síndrome dos Dedos Engasgados. É quando o Poeta até sabe sobre o que precisa escrever, mas os dedos não o ajudam a colocar cada palavra em seu devido lugar. Os dedos engasgados repetem seguidamente as mesmas palavras, cortam letras, borram as pontuações, e não registram qualquer acentuação gráfica; não permitindo assim que o Poeta se expresse como deve, resultando num enigma praticamente indecifrável. Essa é uma síndrome autoimune. O Poeta com dedos engasgados quando lê sua produção passa a julgar que nem ele mesmo sabia o que queria dizer, e entra num processo autodestrutivo, no pior sentido "bola de neve". A outra síndrome, também muito comum, é em base totalmente antagônica. Trata-se a Síndrome dos Dedos Soltos. Nela, o Poeta acometido escreve sem parar, abusa dos sinônimos, e liga um assunto no outro, confessando mil amores em um só poema, e matando mil dores num poema Só. E é só após este ataque de verborragia que enfim entende o que se passava com ele. Há Poetas que sofrem das duas síndromes ao mesmo tempo. Dedos engasgados para a Dor, mas soltos para o Amor, ou vice-versa. Porque não importa quem é titular no peito e quem é vice. O que importa é que, bem ou mal, por tudo ele versa.

quinta-feira, 3 de março de 2016

~O Plagiador de Pensamentos~ 


Era mais um dia de acasos programados. Fazia muito frio lá fora, e "já que os anjos não podem voar, não me arriscarei a sair", dizia ele. Em dias de temperatura abaixo de 10ºC, era imprudente estar longe do fogo da lareira e das grades das janelas; e aquele que saísse, não poderia chamar de fatalidade o que lhe viesse a acontecer. Mas enquanto a lareira o aquecia, e as grades o mantinham a salvo, ele não descansava a mente. Era o dia mais propício para se plagiar pensamentos. As pessoas geralmente não sabem que estão desprotegidas, e seguem com o cérebro a mil, emanando ideias, conceitos e, sobretudo, segredos; mas sem os arranjos dos arcanjos a abafar os ouvidos alheios, ao menos ele se tornava capaz de tudo ouvir. Assim, uma ideia genial passava a ser sua, um conselho qualquer lhe caía como luva, um xingamento forte o atingia em cheio, e era fácil descobrir quem de fato gostava dele, e quem apenas mentia a torto e a direito. Era um superpoder do qual ele se orgulhava, mas não alardeava por razões fortemente óbvias. 

Por algum tempo, foi difícil filtrar as tantas coisas que chegavam de uma só vez. E ainda era preciso educar seus pensamentos e não deixá-los se misturarem aos recebidos, posto que tinham, apenas, de maquiar e moldar os novos para então lhe pertencerem legitimamente. Mas dominadas estas habilidades, o desejo principal fora o de ajudar a polícia a capturar os bandidos que agiam nas redondezas, ao desvendar seus crimes. Só que aquela era uma comunidade de pecados leves. Ele mesmo sabia que sua invasão de intimidade era a maior transgressão a qual o vilarejo estava exposto. Uma bênção e uma maldição que jaziam no mesmo lugar. 

Antes de dormir, escrevia todos os pensamentos que lembrava em um caderninho antigo, de capa de couro, feito por seu pai; dando seu toque final, criando os próprios segredos com cada uma das palavras que roubara de cada um daqueles silêncios. Assim, ele garantia, "aquele que achar este tesouro, jamais achará que este tesouro é seu".

Até que em uma noite de verão, revendo seu diário de cabeceira, percebeu que a senhora da esquina da rua quatro, aquela sempre disposta a ficar exposta a todos os perigos, todos os dias, nunca havia emanado um pensamento sequer. Será que ela em nada pensava, ou será que só ela era protegida mesmo em tempestades gélidas? Na nevasca seguinte, ele amanheceu sem ouvir som algum. Se desesperou. Pensou no que poderia ter feito de errado para perder seu dom. E descobriu que a resposta era justamente o que ele NÃO fez: ele não ouviu a moça, e sequer havia se perguntado o porquê. 

Ele vestiu-se da esperança de que naquele dia em questão os anjos estivessem voando por ali, e por isso ele não ouvia nada. E foi confiando nisso que ele partiu pelas ruas em direção à moça exposta, pois fosse qual fosse a razão do silêncio, nela estava a resposta. Chegando perto, só um cobertor preto sob outro cobertor branco se destacava. Nenhum som, nenhum movimento.

_ Não a descubra, senão ela morre, tal como eu! 

Aquele não era um pensamento. Era um sussurro trêmulo que vinha de debaixo do banco. Era um grito de socorro de quem estava descoberto de corpo e espírito, mas que sobrevivia graças a um coração quente. Diante de sua lareira, aquele pobre homem mal se movia, e dava-lhe a certeza de ser mesmo incapaz de pensar.

Sem suas fontes, o plagiador se consumia, exausto, em seu próprio juízo. Por que parou de ouvir? E seria capaz de voltar a ouvir algum dia? 

_ Obrigado por salvar minha vida! O Senhor é um Anjo!

...E foi assim que ele entendeu que só ouviu de verdade no dia em que parou de ouvir.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O CULTO E A OCULTA
(ou ~A Culta e O Oculto~)

Quando você entrou pela janela, eu estava desprevenida! Minha Alma estava nua, paralisada e em preto e branco, sem sequer saber o que é uma aquarela. Quando você pintou o chão, as paredes e o teto, eu estava deprimida! Minha carne estava crua, gelada e escorada num barranco de sequelas. Quando você se refletiu no espelho, eu estava escondida. Minha face estava em outra rua, vendada, e levando tranco; sem ouvir qualquer conselho e sem nenhuma cautela. Mas você não desistiu de (me a) tentar, de me cantar à capela...

Quando você enfim me tocou o rosto, acordou o meu oposto e fez minha máscara se estilhaçar. Quando você sussurrou-me aos ouvidos, acionou os meus gemidos, educou minha libido, e me fez regalar. Eu só tinha uma única lágrima, que achava tão comovente... Até que você veio feito um mar, e mudou a minha enchente - e me ensinou a nadar a favor da corrente... ... ...

Você veio Amar bem no meio da minha nascente!!!

Ah, seu indecente! Contra minhas provações, trouxe provocações, e até provocou acidentes - ora oculto, ora um viscoso vulto que me atropela. Você vive num campo distante, num reino a parte; sei que não pode estar sempre aqui, então, encontrei uma maneira de sempre te ver... Sem fotografias, fios de cabelo, cheiros no canto da cortina, ou brisas no alvorecer. Não preciso deter sua saída, nem reter a mínima porção, não é preciso qualquer artifício, pois a maior lição que me fez aprender foi dominar o ofício de PARAR DE TE ESQUECER 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

~O Homem Que Nunca Acordou~

Eram seis da manhã, e ele me destinou um tímido "até mais tarde"! Eram nove da noite, e ele estava friamente monossilábico! Eram seis da manhã do outro dia, e ele mal murmurou um "oi"! Eram seis da tarde, e ele sequer se despediu do chefe! Era um homem de poucas palavras, quase onomatopeico. Míope desastrado que esbarrava em tudo. Recordista de batidas de trânsito. Profundo conhecedor da hipnose, bem como da robótica. Um homem que jamais bebeu uma única xícara de café! 

Eram sete e meia da manhã, e ele entrou no chuveiro ainda de pijamas! Eram nove e quarenta da noite, e ele nem ligou a TV! Eram sete e meia da manhã do dia seguinte, e ele uma vez mais passou reto pela banca de jornal! Eram dez e cinquenta e dois da noite do jogo da seleção, e ele apenas admirava a capa do livro novo, sem ousar abrí-lo! Era um homem de passos contidos. Não tinha pressas. Não se irritava. Não provocava nem retrucava queixas. Um homem que beliscava as refeições feito um passarinho! 

Eram oito e catorze da manhã, e a polícia bateu à sua porta! Eram onze e trinta e dois da noite, e ele ainda não havia respondido a campainha! Eram cinco e cinquenta e três da semana posterior quando fui até sua casa saber o que estava havendo. Já era quase madrugada, e eu o encontrei dormindo no sofá! Era um homem inerte, lânguido, modorrento, apático, que não me permitia faxinar decentemente a sala. Um indivíduo narcoléptico sob efeito de soporíferos; que respirava, e nada mais!

Eram, precisamente, nove e oito da manhã do ano seguinte quando enfim encontrei seu diário! As primeiras páginas preenchidas com garranchos que mais lembravam um eletroencefalograma... E eram! Nas páginas seguintes, uma coleção de intimações policiais, multas por desordem civil, receitas naturais e de fármacos, bilhetes de amor - de Sônias e Parassônias -, e um provável testamento deixando tudo para elas.

Sonambúlico, sexônico, sonilóquio... Aquele era um homem que um dia dormiu, e nunca mais acordou!

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Porque isso é 

"GOZTAR" 


Não sei gostar sem gozar. E se gozo é porque gostei. Sei gostar no passado e no futuro, sei gozar no claro e no escuro, portanto, fidelidade e conforto são coisas que jamais lhe cobrei. Nossos mistérios nunca esconderam a sua poligamia mental, e sempre nos bastou um simples e arruinado cantinho de parede. Mas, por tantos anos, esconderam roupas rasgadas que não deveriam estar ali - pelo menos não ao mesmo tempo que as nossas. Porque eu gosto que sua efervescência carnal, ao menos ali, nos seja sui generis... Gosto do exclusivo, gozo no particular! 

Não sei gostar sem gozar. E se gozo é porque gostei. Sei gostar pagando e recebendo o troco, sei gozar dando as costas ou tronco-a-tronco, portanto, fantasias ou padrões são coisas que jamais lhe cobrei. Nossos dogmas nunca esconderam a ruidosa tradução entre a língua de partida e a língua de chegada, e sempre nos fora comum suar pelos olhos e chorar pelos poros. Mas, por tantos anos, esconderam um intercâmbio vazio, e uma rota de fuga que não deveria existir ali - pelo menos não do seu lado. Porque eu gosto desse nosso arquétipo particular compartilhado, dessa nossa oscilação estável que, ao menos ali, não pode cessar. Gosto do discrepante, gozo no peculiar! 

Não sei gostar sem gozar. E se gozo é porque gostei. Sei gostar de combater e cometer um crime, sei gozar parada ou correndo contra o tempo, portanto, compostura e pressa são coisas que jamais lhe cobrei. Nossos abismos nunca apartaram os atritos. Sempre fomos indigentes intelectuais mendigando algum sentido e migalhas de um segundo a mais. Mas, por tantos anos, esconderam a marca da Besta, uma queloide cardíaca que não deveria estar ali - pelo menos não no meu lado. Porque eu gosto desse nosso paradigma alucinante, dessa nossa alternância em nos comunicar. Gosto do café e do almoço, mas só gozo no jantar!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A MAL-HUMORADA DA ACADEMIA 
(gestação, nascimento e batismo) 

Há alguns meses, numa consulta periódica ao ginecologista, veio a prescrição: você vai ter de entrar pra academia!!! Como eu sei que a Academia Brasileira de Letras não acolhe ninguém por ordem médica, não tive dúvidas de que ele estava falando, sim, da tradicional academia de marombados. A razão da recomendação era a imediata necessidade de fortalecer a lombar e a musculatura pélvica. Apesar disso, fiz "ouvido de mercador". Mas não muito depois, no consultório da gastroenterologista, de quem fui buscar ajuda por conta de um refluxo, recebi a mesma ordem, só o motivo era diferente: esteatose grau 1. Eu tinha de queimar gorduras, pois elas já estavam se acumulando no fígado. "Ouvido de mercador 2, a missão", é lógico! Mas nem 3 semanas depois, tive de voltar ao ginecologista por conta de entrega de exames, e o insistente me vira e fala: aposto que está gostando da academia!!! ... Isso é impossível!!!, respondi, sem deixá-lo sequer desconfiar de que não tinha ido lá nem pra perguntar o preço. Mas não dava pra fazer "ouvido de mercador 3, a missão continua". Começava ali uma gestação das mais enjoativas. E como toda gestação, um dia ia ter que resultar num parto. 

Queria aproveitar ao máximo esse "parto" pra, sim, partir pra longe daquilo tudo e continuar a malhar o intelecto e o Espírito como eu sempre fiz. Mas porque sabia que não podia fugir, fiz o que me coube: adiei ao máximo. Como isso tudo se deu em Maio/Junho, não titubeei, e joguei logo pra 2016. Só que quando me proponho a algo, mesmo odiando eu sigo rigorosamente. E assim, em 2/1/2016, nasceu A Mal-Humorada da Academia

Ela nasceu dia 2 porque dia 1 era feriado. Mas enquanto eu planejei um parto particular, chique e confortável, a coisa não foi bem assim. A malhação do dia 2 foi pior que a malhação do Judas. Eu nunca me senti tão exposta. A Academia particular fechou antes do horário anunciado no site, e eu aproveitei que já estava paramentada, e parei pra malhar no PEC (ponto de encontro comunitário) que fica a exatos 200 passos do meu apartamento. Não contei de propósito, contei porque senti profundamente cada um deles depois dessa estreia na Partolândia do Mundo de Saade

Só tinha eu no momento em que "montei" no tal "simulador de esqui" (heim??? Quem diabos esquia em um país tropical e numa cidade desértica como Brasília???). Por um instante, achei ótimo, pois assim eu não ia ser a chacota do pedaço. Eu só não contava com os carros. Cada um que passava, fitava os olhos em mim, de certo porque apostavam que eu fosse cair, devido ao óbvio e escancarado desequilíbrio sobre o aparelho. Meu labirinto já não é dos mais colaborativos, e aliado à falta de prática, então; mas apesar do mico e das dificuldades, eu estava indo muito bem... Até um peão num Fiat podre de velho passar e gritar gostosaaa! Saí de lá tão rápido, e com apenas 15 minutos de "trabalho de parto". O "período expulsivo" foi a jato, e me deu a certeza de que não farei atividade física em público nunca mais na minha vida. Era o terceiro item a se juntar à lista de coisas que eu impus como condições básicas e inegociáveis. As duas que encabeçam a lista são: JAMAIS acordar cedo para malhar; e JAMAIS usar meião até o joelho ou estampas selvagens. 

Mas se o nascimento foi traumático, o batismo me surpreendeu. Totalmente ao acaso, no segundo dia, encontrei no caminho a minha querida amiga Moça da Bicicleta, em quem tanto me espelho pra essa nova fase. E já na academia, igualmente por acaso, encontro meu Médium de Transporte, e faço metade da série ao lado dele. Eis os padrinhos da Mal-Humorada da Academia, pois só eles mesmos pra cuidarem dela tão bem, e de forma tão compreensiva. Do padrinho, ganhei uma confortável carona pra casa; e na pausa pra repor as energias gastas, volto a ver a linda madrinha. Interessante saber que o acaso não existe. Aliás, se não fosse pela carona, que me fez tomar banho em casa, eu teria começado em maus lençóis. Na minha mochila tinha xampu, condicionador, escova e... Mais nada! Não estava levando toalha e nem uma muda de roupa limpa! A pessoa um dia antes já queimou calorias, e alguns neurônios!

Algo me diz que não, não vai ser fácil... Se eu "vingar", volto mês que vem pra contar!

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

CHICO - Suprassumo Brasileiro




Nós Poetas somos atemporais. Aliás, não só não temos idade, como não temos sexo, não temos gênero, nem muito menos algemas, só asas. Prova disso é que Chico Buarque representa a minha infância, adolescência e juventude, sua inspiração assina a co-autoria de cada poema de Amor que escrevi, e isso sem eu estar perto de ser sua contemporânea. 34 anos afastam nosso nascimentos, mas seus 50 anos de carreira cabem em qualquer fatia de Tempo da Vida de qualquer um.

Segundo minha mãe, eu nasci com "os olhos do Chico". Foi o que ela afirmou tão logo me viu, fazendo brotar em meu pai um certo "pedido de explicação". Nasci com seus olhos, e fui recebendo todo o resto pelos ouvidos até que, enfim, adotei sua mesma mania de brincar com as Palavras e os Papéis (num outro nível de competência e dimensão, obviamente). Mas não daria mesmo pra ser diferente: era Os Saltimbancos na hora da papinha, era um passeio pra ver A Banda passar, era um brincar diário de Quem te viu, quem te vê na frente do espelho, e ainda ver minha irmã mais velha crescendo ao som de Essa Moça Tá Diferente. Era sair com toda a família a distribuir cobertores e sopas àquela Gente humilde, era uma Valsinha divertida com o papai pra matar a saudade quando ele chegava do trabalho, e um Acalanto garantido na hora de dormir... Assim se deu a Construção da Poeta que sou hoje! Melhor dizendo, ainda se dá. É um Cordão Cotidiano que nunca haverá de se romper. Uma Tatuagem que me dá coragem pra seguir viagem de dia e de noite, neste ano e no que vem. 




Em abril, presenteei a mim e a minha mãe com a ida a SP para ver o espetáculo Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 minutos - peça criada em homenagem aos seus 70, completados no ano passado. Queria agradecê-la à altura por ter me inundado com esse Universo, proporcionando a nós duas uma noite especial. E quando eu achei que conhecia muito da obra desse gênio, vi que conhecia quase nada! Quando achei que seria uma noite de nostalgia, me vi numa noite de aprendizado. Senti que ainda precisava viver umas duas encarnações no mínimo pra conseguir conhecer toda sua obra, da primeira à última palavra. 


Mas com o filme Chico - Artista Brasileiro, não consegui fazer o mesmo, e assistir ao lado dela. Pelo menos, graças a Deus, vi ao lado de duas pessoas que entendiam perfeitamente a dimensão daquele filme pra mim, e estávamos todas na mesma "vibe". Mentalizava minha mãe o tempo todo, sentia até o cheiro da nossa casa da QI 27, me fazendo crer que não estava em uma sala de cinema, mas sim, na sala de casa, recebendo Chico e seus amigos como visita. E essa sensação de que somos um grupo só, e atemporais, ficou evidentemente Clara quando ela mesma cantou ao lado de seu avô, acompanhada do irmão e da prima. 3 gerações - a do Chico, a minha e de seus netos - cabiam num mesmo Espaço, numa mesma fatia de Tempo. Assim como coube ainda a voz de Marília Pera (nos confirmando sua imortalidade), que nos carregou a conhecer o Buarque Alemão; e couberam também tantos estupendos intérpretes que permearam o enredo, com destaque pra Laila Garin, cantando A Canção Desnaturada de uma forma bárbara, sim, mas em nada desumana - muito pelo contrário!


Chico diz que não é Poeta. Se ele não é, então ninguém mais pode ser (muito menos eu!). Mas entre ele dizer que não é Poeta e de fato não ser um há uma distância abissal. Porque ele é sim, e o melhor entre os melhores. Ele é plural porque é Poeta, é letrista, é músico, autor teatral, romancista, pai, avô, filho e irmão até de um alemão. É plural porque é Chico, é Tom, Vinícius, Edu, Toquinho... É plural porque está em si, e ainda em Caetano, em Betânia, em Ney Matogrosso, Mônica Salmaso, Adriana Calcanhoto, Mart´nália, e até em Carminho, do outro lado do oceano. 

Miguel Faria Jr., assim como em Vinícius, fez o melhor serviço ao público que podia fazer: mostrar e exaltar um verdadeiro artista. Alguém que não se contaminou pela fama, pelo dinheiro, e que apesar de já ter feito tanto, é consciente de que a Vida não pára, e que os desafios são uma importante força motriz. Um verdadeiro artista que tem consciência do poder transformador de sua Arte, e a usa sem moderação, sem medo de preconceitos, censuras, nem de exílio.

E quem tem vontade de sair do exílio poético, e ainda aqueles que nem imaginam estar em exílio sentimental, a porta de saída é a porta de entrada do cinema mais próximo de você. 


Aproveite essa fonte de Luz 
Que mora nos olhos azuis
Que rima com tudo que se estima
Obra-prima que a todos se destina
E em qualquer Língua se traduz!

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O Colecionador de Amnésias




E tudo o que lhe restava era aquele cantinho de parede quase em ruínas, marco zero de uma rota de fuga que ele não se lembrava mais onde ia dar. Ele tocava cada centímetro buscando ler nos rejuntes descascados alguma pista que o ajudasse a não se perder ainda mais. Vivia ali uma solidão vigiada, onde observava os transeuntes baterem ponto nas cercanias a expectá-lo, a apostar se havia enfim chegado o dia em que ele daria um passo a frente... Mas tudo o que lhe bastava era colecionar ali indícios a serem decifrados no momento seguinte! Uma pétala de rosa morta fora posta ali por quê? E há quanto tempo jazia a resistir ao vento, às chuvas, aos dedos intrometidos dos transeuntes? Aquele pedaço de papel verde com marcas de batom havia chegado depois de qual noite? E de qual boca ele provinha? Ele se esqueceu de tudo, e funcionava naquele automático que diariamente o carregava cego, surdo e mudo até ali, e tão somente até ali. Esqueceu nomes, telefones, cores e formas, só não se esqueceu do medo de avançar, pois o medo insistia em acompanhá-lo independente do porquê... 

Até que um dia, no comecinho do fim de um ano qualquer, as horas decidiram acordá-lo mais cedo, e o vento enfim moveu aquela pétala morta, e de quebra também o seu medo tosco. O vento carregou aquela folhagem e empurrou aquela coragem antes em coma profundo. E atrás daquelas árvores, túmulos. E dentro daqueles túmulos, memórias. Lembranças soterradas, resumidas a nomes e datas, cobertas com flores mortas, algumas sucatas, e nada mais. Os transeuntes aquele dia circulavam por lá. Cada um desencavando suas memórias e buscando enterrar outras que não lhes serviam mais. E os papéis então se invertiam. Era ele, e tão somente ele, o expectador daquele intercâmbio vazio, um surto coletivo diante de fatos que gostariam de ver desmentidos... 

Até que ele se lembrou justamente disso: do quanto algumas lembranças pedem para ser esquecidas, pois não sabem ser futuras; urgem pelo próprio fim assim como as dores clamam por suas curas... E dali ele seguiu, em marcha a ré, contra o vento, de volta ao ponto de partida. Posto que tudo o que lhe bastava era seu reconfortante acervo de Inexistências, a tornar eternamente faltante aquela que vinha a ser sua maior Ausência!

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Eu te Rejeito, 
Em nome do Bento Pai, do Doce Filho, e do Espírito Santo

  
   
 

Eu te Rejeito 
E te exorcizo 
Em nome da Santa Cruz

Tendo a meu lado 
A população mineira em ação, 
Eu te Rejeito
Maldita mineração! 

E mesmo sob a Regência triste 
De uma araponga, 
A barra vai ser dura, pesada 
Vai ser uma Barra Longa 
Mas eu barro teu barro em Oração! 

Eu te Rejeito
Eu te combato, 
Precita omissão! 

Se o fundo do teu poço tem Fundão 
A jorrar lama que varre a Mata 
E também mata Mar & Ana 
Lama que espalha 
Todo tipo de podridão, 
A barra vai ser dura, pesada, 
Vai ser uma Barra Longa, 
Mas eu barro teu barro em Oração! 

Eu te Rejeito
Tu e este teu Marco que não Vale nada! 
Que se priva de prevenir 
E mais ainda de remediar tua pobre Mãe, 
Por ti soterrada, mas não vencida... 
Rejeito quem com Ferro fere 
E com Mercúrio, piora a ferida! 

De que Vale mesmo privatizar? 
Vale tudo até não restar nada! 
Vale transformar um leito fecundo 
Num estreito moribundo 
De cada espécie devastada! 

De que Vale mesmo privatizar? 
Vale transformar o Mundo no Imundo; 
E o que é de todo mundo, 
Numa verdadeira 
PRIVADA!


maria eduarda novaes

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

~UMA SAUDADE BOA DE SE SENTIR~


Alguém de quem gosto taaaaanto - pra DêDel mesmo! - hoje mexeu com as minhas Saudades, aquelas tão boas de se sentir... Senti saudade do tempo em que lhe escrevia cartas e enfiava nas gavetas, primeiro porque achava que jamais chegariam ao destino; ou, se chegassem, soariam como um desatino... Senti saudades dos dias em que lhe preparava um presente curtindo a vibração do primeiro encontro, e alimentando a empolgação do reencontro onde eu, enfim, iria presenteá-la... Senti o cheiro do papel cortado (sim, papel cortado tem cheiro! Pelo menos pra mim!), e também da cola. Pude ouvir o barulho do durex, e da tesoura que não parava de cair... Conhecer a história de algo ou alguém que tanto se gosta e admira é um privilégio de poucos. É um privilégio porque têm de se convergir tantas variáveis, o que faz disso algo raro e especial. Sair do sonho sonhado para o sonho realizado exige muito mais que imaginação e esforço próprios: exige uma dose de energia que nunca virá de você. Virá da Sorte - quando vier de algo; ou de um outro Peito - quando vier de alguém... Tudo que sei é que a Energia que se originou dessas tantas que se convergiram aqui ainda não se dissipou, aliás, sei que não hão de se dissipar nunca, porque jamais vou parar de alimentá-la. Isso porque ela não é só minha, é dela também! É, talvez, o presente mais significativo que posso lhe dar em troca depois de tudo o que já recebi! E de tudo, claro, sempre há de nascer algum Poema...