segunda-feira, 29 de julho de 2019

~A Golondrina~
(Tânia Bondezan & Luciano Andrey)

Dizem que uma andorinha só não faz verão... Será!? 

Numa sexta-feira de inverno paulistano, uma andorinha mudou minha estação em segundos! Primeiro, embarquei na estação Saudade e saltei na Reencontro; e então, um frio ventoso se transformou num “VERÃO que o Amor vence o Ódio!", num espetáculo contundente.

A Golondrina levou minha mãe e eu ao teatro do MASP pra rever os amigos Tânia Bondezan e Odilon Wagner (a tradutora e atriz, e o produtor da peça). Se não bastasse isso, ainda fomos premiadas com texto, direção e atuações viscerais memoráveis.

O cerne da peça é a Dor, e como cada um lida com ela. Duas personagens de uma mesma tragédia em princípio disputam suas razões pra estarem um sofrendo mais que o outro, até que ao longo de um texto magistralmente costurado, entendem que uma Dor, independentemente de seu tamanho, se cura enxergando e dando as mãos à outra. E a linha condutora é uma canção que fala da Esperança ao narrar uma andorinha que volta ao lar...

Ramon chega ao lar de Amélia, uma professora de canto que perdeu seu filho durante um atentado terrorista. Ele precisa de seus dotes pra ajudá-lo a cantar "A Golondrina" na cerimonia de homenagem à mãe falecida há pouco tempo. Amélia cantava esta mesma canção para o filho, e faz-se aí um elo que vai ensiná-los o poder do Amor, da aceitação das diferenças, e sobretudo do Perdão pra se alcançar verdadeiramente a cura. 

Baseado em atentados homofóbicos recentes, a morte do personagem Dani expõe preconceitos, pontos de vista radicais, escolhas, culpas, julgamentos, e muitas razões pra sentir desesperança na Humanidade. Mas o voo da andorinha que só quer voltar ao lar enquanto traça no céu desenhos de plumas sabendo que há, sim, sempre uma canção no horizonte, leva Amélia e Ramon a unirem forças pra derrotar aqueles que tentaram matar suas almas ao matarem Dani e tantos outros mais. 

Empatia: eis o antídoto universal pra todo mal!

O desejo e a esperança de voltar pra casa após um duro voo é a base que sustenta e une todos nós, seres humanos, independentemente de crença, raça, ou opção sexual. Todos nós sobrevoamos tragédias - pessoais e coletivas - em meio a céus tempestuosos; buscando sempre um Porto Seguro onde pousar! Mas a grande mensagem é que nem sempre a dor mata, nem sempre a tempestade molha, nem sempre as nuvens cinzas são sinais do Fim, pois, a depender de com quem se voa, essa canção no horizonte sempre ecoa a nos encorajar e guiar.

A Golondrina não me proporcionou apenas um voo, ela me fez estar num Céu tão incrivelmente importante, que (quase) desejei jamais pousar...

Tânia, Odilon e Luciano, gratidão infinita por tamanha lição. 
Eu parti de novo, mas em breve esta andorinha aqui volta pra beijar vocês!!!


anDORinha

Era uma peça sobre a Dor...
A dor do parir
A dor do excluir
A dor do partir!

Era um museu de Artes...
Da arte de atuar,
Da arte de amar,
Da arte de se reencontrar!

Era o voo de uma andorinha
A mostrar à simples passarinha
Que sempre vale a pena
Esperar!!!





sexta-feira, 18 de maio de 2018

~ÉBANO AZUL~

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão se esvaía... Abria a janela azul e ao longe, tudo via: céu azul, montes verdes, pássaros, bichos e um imenso rio a correr... A Escuridão voltava, ainda que um pouco mais tarde, mas minha janela dormia aberta. Eu nunca temi a Escuridão! 

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão se esvaía... Abria a janela branca, com leve camada de poeira, e ao longe, tudo via: o céu com algumas nuvens, montes quase sem folhas, pássaros pousados em galhos meio secos, e o médio rio com natureza morta a nadar em si... A Escuridão voltava, agora um pouco mais cedo, mas minha janela dormia semiaberta. Eu não temia a Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão já não se esvaía totalmente... Abria meia janela cinza, com lascas de marteladas, e ao longe, quase nada via: o céu era nebuloso, os montes não estavam mais lá, muitos pássaros dormiam, bichos gemiam, e o pequeno rio estava quase parando... A Escuridão voltava em poucas horas, e minha janela se cerrava por dentro. Eu já era refém da Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão já dava gargalhadas... Abria o ferrolho da janela negra, mas não a empurrava, pois ao longe, mais nada via: o céu sumiu, os montes sumiram, os pássaros sumiram, e o rio congelou... A Escuridão reinava, e minha janela, já cerrada por dentro, agora era cerrada por fora, e aos poucos serrada por inteiro. Eu já era cúmplice da Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão voltou a atormentar... Coloquei uma cortina azul na janela, agora remendada; pintei-a de branco novamente, aquarelei um sol e uns montes verdes, e comecei a desparafusar as trancas. Perto, bem de perto, já via pássaros, bichos e o rio voltando a correr... A Escuridão saiu da cama e entrou em coma. Eu me divorciei da Escuridão!

O dia sempre raiava, e a raiva da Escuridão a fez sucumbir... Clareei o azul da cortina, arranquei as travas, abri as duas abas, e ela voltou a ser Azul totalmente; e ao longe, tudo, e muito mais, via: arco-íris, incontáveis flores, frutos, cachoeiras, coelhos, ovelhas, gatos e cães... A Escuridão fugiu pela minha janela nova, e caiu na cova... Eu sepultei a Escuridão!!! 

Maria Eduarda Novaes

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

ILUSÃO: um Sonho natimorto?
(Ainda não sei o que vou ser quando crescer)

"Se o Universo não é um só, muito menos limitado, os Sonhos também não são apenas um, e não devem ter data limite, tamanho mínimo, ou qualquer regulação. Sonhos não são Ilusão, e, mesmo que fossem, Ilusão jamais será um Sonho natimorto, apenas um Sonho exclusivo, que não se compartilha com ninguém mais." - M.Edward War

De berço, já ouvia minha mãe dizer "faça a sua cama!", mas só há pouco entendi que isso sempre teve mais de um significado... "Fazer a cama" não era tão somente alisar os lençóis, esticar a capa protetora e organizar os adornos ao redor; mas também arrancar as grades, elevar sua altura e esticar o comprimento à medida em que eu crescesse. "Fazer a cama" é sobretudo organizar os Sonhos em riste ao longo do dia pra que não morram na Realidade, e, assim, eu possa seguir a construir uma cama para cada um se abrigar, protegido, até nascer. Tecnicamente, então, "fazer a cama" é zelar pelas sementes plantadas, e definir o que a gente vai ser quando crescer!

Será??? 

Eu ainda não sei o que vou ser quando crescer, porque ainda estou crescendo!!! Aliás, eu cresço e decresço, a depender do ponto de referência, e, de preferência, do que mais vantajoso for... Se for no Amor, eu estico; se for na Dor, encolho; mas vai mais é pelo Humor mesmo, porque há dias em que a Dor me faz ser maior que ela, e o Amor me faz rastejar. A depender da ideia, a coisa também complica, porque, se uma vizinha comigo implica, por pura pirracinha, faço logo o oposto do que ela retrucou! Porque assim sou: de momento a momento, um entra-e-sai de implementos, complementos, e inadimplementos.

Já quis ser um jornal, mas quando soube que não seria apenas boas notícias, me deprimi em vez de me imprimir. Já quis ser astronauta, mas ao saber que o céu é "O" limite, desisti! Já quis coisas arriscadas, certinhas, delirantes, cansativas, mesquinhas... Já fui da escassez ao desperdício numa mesma régua. Já quis ser uma guerra sem trégua. Já quis nascer aposentada, e morrer no auge da produtividade. Já quis ser cozinheira e curandeira, fervendo um caldeirão de salubridades. Já quis ser mágica ou detetive, autofágica ou uma curva em declive. Já quis ser dona de Tudo, ou no mínimo a sócia; vestindo saia de veludo num balão na Capadócia. 

Aprendi a fazer várias camas, e das mais variadas maneiras; e percebi que quanto mais as ampliava, menores ficavam os cobertores: se puxar daqui, descobre ali... Descobri! EUREKA!!! Foi-se a proteção do Mistério, e foi-se também a exclusividade, porque não dá pra caber de volta nele se não juntarmos retalhos de outras Quimeras. E é nesse novo construir que a gente enfim percebe que Sonhos dormem em camas flutuantes, e se cobrem com a própria teia de seda que não cessa jamais de crescer!

Por isso, ainda não sei o que vou ser quando crescer. É que quando achei que já havia crescido e me tornado uma escritora, me vi sendo nada mais que um livro inacabado! Sou um eterno Sonho que abriga a Realidade, a Fantasia, a Certeza e a Ilusão; e ainda uma última página em branco a acolher um novo querer, bem como aquele eterna inconclusão... 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

~Entre Pedras, Cadernos e Amores~


Por tantas vezes, caminhei caçando sombras para dar a elas os raios de Sol que trazia nos bolsos... Eram passeios por sobre as pedras e sob Silêncios, algumas vezes registrados em papéis... E quando meus silêncios cruzavam com tantos outros silêncios, me perguntava quais mistérios cada um trazia... Seriam os mesmos que os meus? Quais desejos enfeitavam as paredes de cada Universo, e quais cores, tempos e dimensões eles tinham? Mas, mesmo que eu perguntasse, respostas nunca vinham...

E agora, em uma nova estrada, a caçar novas sombras pra clarear e colorir, achei respostas que sequer precisavam de perguntas! Hoje, sei exatamente quais os raios de Sol que trago comigo, e quais somas de afetos constroem meu arco-íris: VOCÊS!!! 

Vocês são meus casamentos, minha maternidade, meus versos, minhas vaidades, a organização do meu caos, o papel de parede florido da minha gaiola de ouro... Vocês são meu Mapa Mundi, são cada roupa que visto pra conquistar cada sonho, e cada sapato que nivela cada curva dessa estrada. 

Nas regiões da minha Solidão, tudo o que fiz foi desenhar letras unidas, ora em microscópios utópicos, ora em abissais colossais. E foi assim que escrevi a receita da mais milagrosa analgesia...

Tudo que eu sei é que, seja no Norte ou seja no Sul, vocês são aquela mistura deliciosa de prosa cor-de-rosa com poesia azul!!!

Dani
Leca
Samara
Mercês
Verônica
Clara
Rosi
Lidiane
Candice
Kátia
Marina
Iza






quinta-feira, 23 de novembro de 2017

~ GUTO E O BALÃO ~

"Acorda, menino, que os sonhos do lado de cá também são muito bons"


Guto sempre gostou de Sonhar!

Quando bebê, ele dormia demais, sempre esboçando um sorriso no rosto. Durante anos, sua cama foi palco de batalhas épicas, de viagens interplanetárias, de espetáculos de dança, e pelo menos uma final de Copa do Mundo por semana. Acordar, pra ele, sempre foi a maior de todas as torturas. Quando chegava a hora da escola, e o despertador tocava, Guto entendia por que aquele objeto tinha o nome que tinha: ele "desperta a dor" que mora nos que não podem mais sonhar... 

Ainda muito pequeno, já trocava qualquer tempo livre por um cochilo, exceto quando seu avô estava por perto. “Acorda, menino, que os sonhos do lado de cá também são muito bons", dizia o vovô Johnny sempre que via o neto de olhos fechados. A Fazenda Ilusão era mesmo um sonho à parte, e Guto sabia disso desde muito cedo. Foi lá que virou amigo inseparável de Utopia, uma galinha das mais "conversadeiras", e também de Quimera, uma lebre agitadíssima; companhias perfeitas pra estripulias e peraltices de todos os jeitos. 

Seus nomes foram duas coincidências interessantes. Quando criança, Guto se chamava de "Uto", pois ainda não sabia falar o "G". E sua galinha de estimação ainda era uma pintinha bem piadeira, que ele amava imitar. “Agora essa! Uto pia o dia todo, quem aguenta?", disse a vovó às gargalhadas; o que inspirou o vovô a batizar a amiga piadeira do menino sonhador com o sugestivo nome de Utopia. Com a lebre, foi bem parecido. Muito rápida, ela corria demais, e o menino corria atrás sem conseguir alcançá-la de jeito nenhum, dizendo “espera, espera!". Como ainda era pequeno demais, parecia dizer "imera, imera", e o vovô, mais uma vez, associou o nome da amiga a algo bem típico do universo dos sonhos, chamando-a de Quimera. 

Guto, Utopia, Quimera e vovô Johnny eram o autêntico Dream Team (O Time dos Sonhos). As brincadeiras iam de mergulhos nas 20 mil léguas do laguinho das piabas até a construção de um Super Balão, que levaria os quatro aonde quer que eles quisessem ir. 

Vovô pediu à vovó alguns retalhos, linhas, agulha, barbantes e cola. E da sua oficina, pegou alguns pregos, parafusos, e uns bons pedaços de madeira. Utopia bicava as madeiras até fazer furinhos por onde passariam os barbantes, Quimera roía as bordas para um perfeito encaixe das toras, enquanto Guto e vovó costuravam os retalhos. Demorou um longo tempo, mas num finzinho de tarde, ele ficou pronto. A noite veio, e o encantamento de todos era imenso. Era tão agradável, que decidiram acampar ao lado pra ficarem mais tempo contemplando o Expresso Fantasia. Acenderam uma fogueira e ali permaneceram por horas, admirando cada pedacinho, só esperando o dia amanhecer pra saírem voando.

Foi então que todos pegaram no sono, menos Guto, que não resistiu e decidiu deitar sobre a grande pedra que havia se tornado a base do balão, e ficar bem embaixo do imenso pano colorido, só imaginando onde seria o primeiro lugar pra onde iriam. Mas de repente, um vento forte soprou por ali, passou pela fogueira e levou o fogo todo pra dentro do balão, fazendo-o voar, e voar e voar, cada vez mais alto e cada vez mais longe...

"Deu certo! Deu certo!"

Guto era o retrato mais fiel da felicidade. Ele via o mundo cá embaixo ficar pequeninho, enquanto seu sonho ficava cada vez mais imenso, a ponto de não se ver o fim. Mas ele não queria sonhar só. Nunca quis. Ele queria seus avós, Utopia e Quimera bem ali com ele, mas não sabia como voltar pra buscá-los. Foi quando ele teve uma ideia: dormir pra poder sonhar com mais força ainda, e fazer o balão voltar pra fazenda pra buscar todo mundo. Funcionou! Quando ele acordou, todos estavam com ele, e também seus pais e sua irmã.


“Entrem, entrem logo, é muuuito legal lá em cima. O Sonho é tãããooo grande, vocês vão adorar conhecer! Vamos!!!” 

Guto não entendia por que eles só choravam e riam ao mesmo tempo, e o abraçavam apertado, como se comemorassem o feito; mas não queriam subir no balão. 


“Está quebrado, meu amor. Não vai mais funcionar, esqueça isso!”

Sua mãe, aliviada por ter o filho de volta à terra firme, tentou convencê-lo a sonhar apenas sob a supervisão de seu travesseiro, e Guto ficou inconsolável. Queria a ajuda de todos pra reconstruir o balão, e não entendia o medo deles, mesmo de Utopia e Quimera. Não teve outra escolha senão catar, sozinho, cada retalho, cada pedaço de barbante e começar a reconstruir sua máquina mágica, até que percebeu que um sonho sonhado por tantos nunca poderia ser realizado apenas por um. Ele precisava arrumar um sonho que fosse só seu, mas sabia que a lembrança daquele dia não poderia se perder jamais...

Guto colou cada pedacinho dos retalhos e dos barbantes reproduzindo a imagem do balão na maior parede de seu quarto, fazendo de seu cantinho um lugar de sonhos de olhos fechados e sonhos de olhos abertos. E em cada pedacinho de retalho feito papel, ele anotava seus desejos – os antigos e os que iam surgindo a cada noite – ora com as letras, ora com desenhos, para retratar aqueles sonhos que só a gente sabe “ler”, portanto, palavras de nada adiantam. E quando enfim não havia espaço para um rabisco sequer, Guto percebeu que uma coleção de sonhos nada mais é que uma grande conquista; e que sonhar, por si só, já é viver um sonho.

Nasceu, se espelhou numa Utopia, perseguiu incansavelmente uma Quimera, e cresceu... E enfim entendeu que se o sonho nunca sair do papel, tudo bem, é só aprender a amar o papel, a colori-lo com esmero, a colar partes que rasgaram, a desamassar e restaurar os mais antigos, porque há sempre mais de uma maneira de se sonhar o mesmo sonho. 

Se um sonho nunca sair do papel, tudo bem, é só levar consigo partes dele na mochila para ter sempre o cheiro, a textura e as cores de cada momento, porque cada momento é único!

Por isso, aquele balão nunca mais voou, mas também nunca deixou, e nem deixará de existir... 



”Se um sonho nunca sair do papel, tudo bem, é só aprender a amar o papel” 

Maria Eduarda Novaes

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Portadora de Necessidades Espirituais
(como é ser uma deFÉciente)

Eu julgo que sim, sou deFÉciente! Eu carrego uma crença que sabe que é cega de um olho, surda de um ouvido, manca de uma perna, e tantas vezes incapaz de brilhar no escuro...

Minha FÉ sabe bem que já é uma senhora idosa que nunca chegou à puberdade; que se curva diante da Vida por culpa de um bico-de-papagaio (daquele que só sabe repetir padrões); e mora num armário de costura, a colecionar milagres esmigalhados e pedaços de papéis rasgados exibindo desejos riscados, passando os dias a remendar tudo com linhas mais resistentes...

Minha FÉ é apelido de Febre, que me sobe de repente, esquentando a cabeça, escancarando os poros, e vazando linfas por todos os orifícios. Uma força que já vestiu camisola de hospício, e que quando ora, ora lubrifica, ora seca meus olhos, como quem mira o Solstício...

Minha FÉ entende bem - mas preferia ignorar - que não há fórmula única que sirva a todos, que não há uma resposta universal que responda a qualquer pergunta, e que nem mesmo ela fala todas as Línguas. Por isso, já gastou muito dinheiro à toa tentando aprender com o espelho dos outros, mas também se desfez de outros tantos na certeza de ter o que ensinar! Porque ela quer ajuda, mas também sempre quis ajudar... 

Minha FÉ troca os turnos regularmente: dorme à luz da razão, e acorda na sombra da dúvida, onde, aliás, já realizou muitos sonhos que sequer ousou sonhar minimamente. Já colocou sal no suco, seguiu quem se autodeclarou `perdido´, decorou um livro escrito em páginas em branco, confundiu justiça com vingança, e tomou banho de inseticida como forma de descarrego... É pedra mole embaixo de água dura, e vê nisso um aconchego! 

Mas minha FÉ 
Tem dia que extrapola, 
E legaliza a Brisa... 
Só que, indecisa, 
Termina por voar 
Trancada na gaiola! 

É que ela se vê tão pequena e frágil, com direito a apenas duas letras, quando merecia carregar o alfabeto inteiro dentro de sua invisível sacola! 

...Mas é que isso de cuidar do Depois nunca depôs sua fixação por não dar um passo sem explicação! Por isso, a minha FÉ é uma membrana fibrosa, é uma brega das mais estilosas, é uma ciência humana que sabe ser exata, só não sabe exatamente quando ser... Minha FÉ já foi a Cruz de quem chegou ao apogeu. 

É cada partícula de lembrança das coisas que todo mundo esqueceu!

Maria Eduarda Novaes

sexta-feira, 2 de junho de 2017

~A CAIXA DE PANDORA~

Ela sabia que dentro de si carregava uma caixa com tudo: dores, rumores e amores. As dores só lhe traziam lágrimas, os rumores só lhe traziam medos, mas os amores lhe traziam bonança, segurança e esperança... Por tantos anos, Pandora sabia que se abrisse sua caixa por míseros centímetros em meros segundos, poderia ao fim reter apenas as dores ou apenas os rumores. Reter os amores, como desejava, seria uma loteria na qual ela não queria confiar. Ou melhor, querer ela queria, mas não conseguia confiar... E tantas foram, então, as artimanhas que Pandora criou para tentar enganar a Probabilidade. A primeira foi maquiar as dores e os rumores pra que a todos parecessem amores. As lágrimas passaram a cair sobre sorrisos, e os tremores do medo viravam pulos de euforia. Assim, acreditava ela, poderia enganar até mesmo os próprios sentimentos, que não mais se reconheceriam no espelho, entrariam em crise existencial, brigariam entre si; e nesse mata-mata, só restariam os amores, pois "o Amor sempre vence", não é? Mas logo viu que isso não deu nada certo, porque todos ainda sobreviviam, e os amores passaram a lhe doer, amedrontar, e isso tanto lhe confundiu a mente. Ela então chorava sem saber o porquê, sentia dores onde antes só reinavam torpores e suspiros, e estranhamente sentia amor por coisas que só sabia desprezar. Pandora então acabou com as maquiagens, e as dores voltaram a ser só dores - assumidamente fortes - e os rumores praticamente a congelavam, mas os amores ganharam novas faces. Ela custou a entender e a aceitar que eles literalmente se misturaram aos demais, e, dali por diante, as dores sempre lhe trariam lágrimas, os rumores sempre lhe trariam medos, mas os amores também lhe doeriam e estagnariam. Pandora passou a sentir medo do amor e a sofrer com ele, e assim ela não via mais vantagem em reter nada, pois nada mais era puro e inconfundível. Valeria mais a pena deixar tudo ir embora, e, da mesma argila com que fora feita, criar novos amores, e jamais ousar criar dores e rumores. Pandora então liberou suas lágrimas, seus medos, e suas bonanças, seguranças e esperança; pegou uma porção de sua própria argila e começou a modelar... Mas modelar o quê? E como? Ela não tinha nem mais lágrimas pra umedecer a argila, e muito menos ideias, desejos, nada! Ela não tinha nada mais!!! Foi o bastante pra entender que os medos, as dores e as lágrimas estão num trabalho de parto não à toa. Nada nasce antes deles, e nada nasce sem eles. Pandora entendeu também por que é depois da tempestade que vem a bonança, e não o contrário - que essa ordem nunca se inverte - e tudo lhe fez sentido. Dói pra abrir, e dói pra fechar. Dói manter aberto e vazio, e dói manter fechado e retido. Tudo dói, e tudo faz molhar, mas dor não mata ninguém, e dor não seca a gente. Rumores podem virar verdade pra uns, mas morrer rumores pra outros. E amores têm a cara, e as maquiagens, que damos a eles. Dores são inerentes, rumores são intermitentes, mas os amores sempre serão tudo, porque os amores são permanentes!

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Hoje, eu fiz um aborto!


A cada manhã, a mesma rotina: eu te gestava, te alimentava, te sentia mexer em mim, e, assim, mexer comigo... Te levava pro meu banho, depois à praia, e dirigia meu carro com a consciência de que, agora, era você quem estava dirigindo a minha Vida. Eu passei a voar onde antes mal caminhava, pois a cada passo era uma queda livre. Porque você me afagava, passei a respirar onde antes me afogava; e meu sono enfim me fez dormir após aquele pesadelo contínuo que não me deixava acordar. E enquanto eu ia me doendo aos poucos, percebia você se doando; e via o tempo passar e você crescer a olhos vistos... Até que chegou o dia de você chegar por completo. Era o dia de nascer. Era o dia de eu me doer como nunca, me contorcer, quase me arrepender, mas ser recompensada por ver seu rosto, sentir sua carne, e te alimentar de tantas outras formas. Mas eu só ia me contorcendo, me arrependendo, quase agonizando, e você não chegava... Eu já tinha o espaço arrumado pra te receber, a comida pronta, ouvia e sentia seus sinais, mas o tempo ia passando e ao invés de ficar mais perto, tudo ficava mais longe... Fui pedir ajuda! No caminho, virando a esquina, esbarrei em outra barriga d´água, como a minha, pendurada em um rosto amargo, sofrido, a segundos de sucumbir... Um espelho!!! E enquanto o encarava, uns me gritavam "é verme", outros diziam "isso não é nada, não". Até que o espelho quebrou, atingido por uma pedra, o que me tirou do transe. "Ei, moça, isso é uma Ilusão", ouvia uma voz turva atrás de mim. Me virei. "Já gestei várias", ela continuou, "e elas não chegam, elas partem". Perguntei se elas partiam de nós ou se nos partiam. E só de perguntar, eu mesma respondi. E foi ali, no meio da rua, ao meio-dia de outono, com as folhas fazendo cama para mim, que fiz meu primeiro aborto afetivo!

...E a cada manhã, a mesma rotina: eu me gesto, me alimento, me mexo, me limpo, dirijo tudo, voo alto, respiro fundo, durmo e acordo comigo, e cresço por inteiro a olhos vistos!

Me doí, mas me curei. E nunca mais precisei fazer um aborto...


Maria Eduarda Novaes

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

~ de apelido "Roda-Viva" ~

(ATENÇÃO: contém Spoilers)


Se alguns infernos fossem mesmo provisórios, tudo seria mais fácil. E se alguns redemoinhos um dia se dissipassem de fato, também. Mas nem todo inferno é provisório, e alguns redemoinhos são mais que rodas-vivas: são rodas eternas.

O filme Redemoinho, de José Luiz Villamarim, com um elenco estelar, foi inspirado em contos do livro Inferno Provisório, de Luiz Rufatto; mas a mim, me pareceu uma transposição pro cinema da música Roda-Viva, de Chico Buarque de Holanda, onde só sua primeira estrofe resume tudo: tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu. A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu. A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a Roda-Viva, e carrega o destino pra lá! 

Os amigos Gildo (Júlio Andrade) e Luzimar (Irandhir Santos) passaram anos sem se verem. O primeiro se mudou pra São Paulo, ficou bem de vida, enquanto o segundo ficou em Cataguases/MG vivendo uma vida bem simples. Até que na noite de natal, eles se reencontram e percebem que, perto ou longe, em uma cidade grande ou numa província, o fantasma de quem partiu/morreu os estagnou - cada um a sua maneira - e ainda os assombra. Ambos tentaram deixar o passado realmente pra trás, mas o Redemoinho que os engolia só então fora percebido por eles. O tempo rodou num instante! E, como em toda roda, tudo volta ao ponto de partida. 

A dinâmica de um redemoinho foi a mesma de seu roteiro. Um redemoinho centraliza tudo, sugando e prendendo as coisas ali, mas sem deixar de mostrar o quadro amplo de suas bordas e meandros geradores dessa força centrípeta. Gildo e Luzimar são o centro da tragédia que vitimou Marquinhos, que enlouqueceu seu irmão, Zunga (Démick Lopes), e que estagnou a vida da mãe deles, Bibica (Camilla Amado). São também o centro da solidão de Dona Marta (Cássia Kis Magro), mãe de Gildo; da mudança de vida de Toinha (Dira Paes), esposa de Luzimar; e também da vida de Hélia (Cyria Coentro), irmã de Luzimar, e o grande amor de Gildo. E com a trama centrada neles, os demais se desenvolvem de uma forma bem peculiar: seus enredos são contados com excessiva presença de sons e imagens que atuam como sub-textos e mensagens subliminares. Sim, a fotografia e o sonoplastia são narradores secundários extremamente importantes na história. O trem, por exemplo, sempre passar quando é preciso quebrar os silêncios, e também em momentos de conflitos, amplificando seus "barulhos". O rio, a chuva e a ponte assumem a narrativa em flash-back de Marquinhos, Bibica e Zunga; enquanto a apatia, as caras e bocas, e as poucas palavras (em outras palavras, o talento absurdo de Cássia e Dira) assumem os destinos de Dona Marta e Toinha...Todos os elementos do filme são narrativos, e tudo converge para Gildo e Luzimar, mesmo parecendo ser Zunga o olho deste furacão, a "carregar a loucura de todo mundo nas costas", e só querer "ser normal de novo". 

Em redemoinhos não há reviravoltas, não há controle, há entradas, mas não saídas, e sobra tensão. E é nessa tensão constante que o expectador é mergulhado, e só não sucumbe de fato porque as levezas humanas, tão presentes neste roteiro, são o bálsamo que o mantém respirando na superfície - e ensinando que um redemoinho não necessariamente significa uma sentença de morte para todos os capturados por ele... Um filme que vale muito a pena!

Maria Eduarda Novaes

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

~Pequeno Segredo, Grandes Revelações~
Quando um Segredo é a opção escolhida pra não magoar, entristecer, ou é pra proteger alguém, ele automaticamente se vira do avesso e torna-se justamente uma Revelação. Esconder algo por Amor só faz revelar que se ama, o quanto se ama, e sobretudo quem se ama...

E falando em Amar, hoje não vim aqui despejar minhas críticas técnicas. Perdoem-me os que estão acostumados a elas, mas hoje, não. Hoje, tudo aqui é amador, pois vim apenas explicar por que eu amei essa história! 

A Família Schurmman entrou na minha vida em 2006, quando, em um concurso de um site, ganhei como prêmio o livro Em Busca do Sonho (2006). Dali, simplesmente quis saber TUDO sobre essa família aventureira. Comprei seus demais livros, exceto Pequeno Segredo (2012). Eu sabia da história de Kat - enquanto lia Em Busca do Sonho, a imprensa noticiou seu falecimento, e consequentemente eu soube como ela se tornou uma Schurmman - e achei que choraria e sofreria muito lendo "detalhes". Mas eis que dez anos depois de eu me apaixonar por essa família, o único livro que não li se torna um filme. E se já sou apaixonada por livros, imagine por Cinema... E imagine ainda por Júlia Lemmertz! 

Chorar passou a ser, então, mais que obrigatório!!!

Fiz questão de ver o filme sozinha, em uma sala/horário pouco concorridos, pois tinha receio de transformar o cinema num novo Oceano, ao liberar em segundos as "Cataratas do Iguaçu" há anos acumulada em mim... Entrei na sala com receios, prendendo a respiração, mas os minutos foram passando e o "melodrama" não havia dado seu recado. Me tranquilizei, relaxei, e curti Júlia Lemmertz, Maria Flor, Fionnula Flanagan, e Mariana Goulart. Os meninos que me desculpem, mas esse filme foi, como está na moda dizer, "uma bandeira no empoderamento feminino"! Nem o Pélago, em sua real grandeza, conseguiu se sobressair nessa. As meninas, a começar pela autora da obra homônima, simplesmente dominaram tudo!  - embora eu tenha de fazer jus ao "menino" roteirista, David, afinal, ele quem reuniu e exibiu o show das Damas. Obrigada, meu rapaz! 

Heloísa reatou um laço que Kat havia perdido, e assim criando um a mais para si e sua família. E é no centro desse laço que mora o tal Pequeno Segredo, que revela ser, simplesmente, a maior de todas as coisas: o Amor. Esse filme é uma história de família, que deixou de ficar restrita a um barco, e mesmo a um livro, e nos foi presenteada em amplo aspecto. É uma história de relações humanas que vão além da genética e da cultura; que prova que tudo o mais é coadjuvante e supérfluo, até mesmo a liberdade de navegar pelo Mundo. O Mundo, aqui, parece pequeno, parece segredo, mas é infinitamente maior que o Mar...  

Heloísa contou sua história, e Júlia Lemmertz mergulhou nesse Oceano particular fazendo dele a sua história. Eu quase esquecia o rosto de Heloísa quando o de Júlia a representava. Eu praticamente não conseguia ver "Maria Flor" como a mãe de Kat. Kat era de Heloísa / Mariana era de Júlia... E Júlia ensinou, pra "gringos e goianos", com e sem sotaque, como Amar alguém, numa cena irretocável e memorável que, pra mim, resume todo o filme! Vilfredo, David, Pierre, Wilhelm, e todos os demais personagens estavam tão pouco em cena, creio, porque preferiram assisti-las. Eu, no lugar deles, faria o mesmo. Eu navegaria nessa Imensidão de Mulheres fortes - de dimensões incalculáveis e infinitas - sem pensar duas vezes.

Era um filme, sim, e com estrelas nacionais e internacionais. Era um filme com cenografia impecável assinada pelo maior de todos os cenógrafo: Deus. Era um filme com todas as demais características de um, mas, ao fim, era simplesmente "uma linda história de Amor", que suavizou tremendamente uma grande tristeza. Uma lição de vida conduzida por uma Júlia Lemmertz linda, serena, enxuta, brilhante... Alguns filmes não são pra serem "analisados", vistos por sua forma, por seu conjunto técnico de cenas. São pra serem absorvidos, apenas. E aqui, o segredo é exatamente esse: a História em si. Todo o resto é detalhe. 

IMPERDÍVEL, Pequeno Segredo é um filme que faz chorar, sim... Mas não sofrer!!!

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

"Eternamente Antes, e Para Sempre Depois"


Quando, exatamente, uma Amizade começa? E quando termina? Impossível dizer! Amizade a gente estima o começo, e no fundo sabe que não tem fim. Mas se é pra falar de datas, então, falemos da última década... São quase 10 anos desse Amor que nunca morre, esse Amor que desconhece egoísmos, e todo o tipo de "frescura" capaz de desandá-lo. Há quase 10 anos que tenho ao meu lado uma Poeta-Inspiradora (melhor dizendo, minha Poesia de estimação); uma guia 24h, afinal, Poeta nunca se ausenta de verdade, só tira licença poética. Há quase 10 anos, eu tenho uma Poeta que compõe umas músicas que só a Alma é capaz de escutar - e a minha escuta cada nota com exatidão. Músicas que vêm daquela fábrica de Sentimentos que sobram no peito, e então escorrem pelos olhos (que até sorriem), e ainda por bocas e mãos, em palavras e carinhos. Mas a verdade é que minha Poeta sempre esteve na minha Vida, antes mesmo de saber que eu tinha uma Vida. Mas tão logo soube, a acolheu plenamente. É a prova cabal do Eternamente Antes, e Para Sempre depois! E hoje, a minha Poeta faz mais um verso. Sim, porque Poeta não envelhece, faz um novo verso. E pela mesma razão, Poeta também nunca morre, vira reticências... Há quase 10 anos, me pergunto, então, o que pode valer mais do que isso? E a cada vez que me pergunto, mais sem resposta eu fico, pois a resposta é justamente essa: nada! Nada nesse mundo vale mais que um Amor assim. Porque gostar de Poeta é mais que obrigação, é mais até que pura inteligência. Mas ser do gosto de uma Poeta é mais que privilégio: é, sim, a mais pura Dádiva que pode haver. Você é um presente de Deus pro mundo, e um presente do Mundo pra mim. E não há presente no Mundo que eu possa te dar que seja capaz de expressar a minha Gratidão, tão vasta... Será, então, que um "Eu Te Amo" basta???


Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Entre, por favor, e repare bem na bagunça!

...E eu sempre deixava tudo em seu devido lugar, com a faxina em dia, pois você podia aparecer a qualquer momento! Mas com o passar do tempo, eu vi que você não me alcançava porque ora estava com um pé atrás, ora a mil pés de profundidade. A casa, então, ia perdendo o cheiro. A poeira ia acumulando a ponto de se recusar a sair com facilidade depois. As teias de aranha iam se confundindo com a cortina do quarto e com os lustres da sala de jantar. E o bule de chá congelou às 16h59.

...E eu sempre deixava tudo em seu devido lugar, com a faxina em dia, pois você podia aparecer a qualquer momento! Mas com o passar do tempo, entendi que você sempre foi o meu universo surreal, a minha maior loucura. Alguém que amei de uma forma pós-concebida, e sem dar satisfação. Alguém que amei, mas simplesmente esqueci de avisar que amei. Eu entendi que construí uma via de mão única. Eu não te deixei mais que o acostamento onde você se encostou, e de onde nunca quis sair. E se um dia você não mais passear com os cães na Praça de Maio, tudo bem, eu voltarei lá quantas vezes forem necessárias só para seguir seu rastro. 

...E eu sempre deixava tudo em seu devido lugar, com a faxina em dia, pois você podia aparecer a qualquer momento! Mas com o passar do tempo, entendi que aquela cabeça dormindo no meu peito acontecia só do lado de dentro. E aquele cafuné que eu fazia era sempre no espanaDor. A casa, então, perdeu de vez o cheiro. A poeira se concretizou. As teias de aranha também. E o bule de chá enfim se quebrou pontualmente às 17h.

Maria Eduarda Novaes

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

~O Silêncio do Céu~

Dizem que o silêncio, além de prevenir problemas, é o melhor remédio contra todos os males. Talvez seja por isso que a máxima de "colocar uma pedra em cima do assunto" seja tão comumente usada. E em O Silêncio do Céu, essa metáfora foi concretizada. 

Carolina Dieckmann é Diana, uma brasileira radicada no Uruguai, mãe de dois filhos pequenos, que, junto à outra brasileira, trabalha como designer de moda. Diana é violentada por dois homens dentro da própria casa; e em seguida, demonstrando estranha normalidade, liga para Mário (Leonardo Sbaraglia) pedindo a ele que pegasse as crianças na escola. 

O que o público até ali ainda não sabia é que Mário - o marido que até minutos antes de a película começar era o ex, que havia voltado pra casa dias antes - tinha visto tudo, e até tentou reagir, mas por ser um colecionador de fobias, foi incapaz de tal feito, e passou a se culpar. Além da culpa, passou também a lidar com o silêncio sepulcral da mulher. Sem entender como alguém pode fingir que um estupro não aconteceu, o roteirista profissional se aproveita de seu ofício para primeiramente achar respostas e, então, escrever um personagem vingativo e vivê-lo além dos limites. 

A essa altura, você deve estar dizendo "pare, volte, me atualize! E a tal da metáfora concretizada???". Pois bem, obrigada pela lembrança! Assim que Mário percebe que a mulher está sendo violentada, ele pega uma pedra grande pra usar como arma, mas essa pedra vai parar em cima da mesa da sala, e lá permanece até a última cena. Dias vêm, dias vão, a família passa por ela inúmeras vezes, e lhe é totalmente indiferente. Agem como se não percebessem um elefante sentado no sofá da sala, e que sentou ali de uma hora pra outra. Diana não tirou a pedra porque ela representava seu silêncio. Mário não tirou a pedra porque ela abafava o barulho desnorteante dos medos que o atormentavam e incapacitavam desde criança. E os filhos não tiraram a pedra porque pra eles ela não significava coisa alguma. Mas essa não é a única metáfora concretizada ali. Os cactos são quase um grupo de atores coadjuvantes que representam toda a verve psicológica adotada pelo roteiro e pela direção. Chave do mistério, essas plantas tão presentes no enredo simbolizam a adaptação e a resistência perante condições inóspitas e até drásticas. É um cacto que fere Mário durante o estupro de Diana (o colocando talvez numa condição igual a dela). É um cacto que encanta os filhos do casal pela possibilidade de "se mexer", e trazer alguma novidade a suas rotina tão pacatas. O trabalho de Diana é baseado em cactos, e é por meio de uma metáfora que alude aos espinhos que ela finalmente extravasa sua dor, num único e raro momento de transparência emocional.

Filmado em dois idiomas, e em dois pontos de vista! Representado por um elenco estelar, o Silêncio, astro principal do filme, ao fim simplesmente transita. O que era apenas de um, passa a ser de ambos. Y la nave va...

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

~O Caçador de Silêncios~

"Nunca mais traia a Santa Quietude", dizia o bilhete que encontrara à cabeceira da cama. Alguém havia entrado ali na calada da noite e a deixado inteiramente calada. Ela não conseguia pronunciar uma palavra sequer. Sentia que seus lábios estavam dormentes, e mais quentes e úmidos que o normal. Podia sentir um gosto estranho e um cheiro que já conhecia, mas não conseguia identificar. Saiu de casa ainda desorientada, de camisola, tentando gritar por socorro, mas sem sucesso. Foi então que se lembrou da Muda do Lago da Prata. Se alguém ali tinha a solução deste mistério, só poderia ser ela. Mas teria de esperar amanhecer... 

A Muda do Lago da Prata é uma senhora que há anos passa as horas de seus dias sentada sobre o banco de concreto em frente à lagoa dos patos, no parque central. Ninguém sabe seu nome, afinal, ela não fala e nem tem qualquer documento. Perto dela, sempre - e somente! - o jardineiro do parque. Se entreolhavam raramente em meio a encaradas frustradas, pois enquanto um fitava, o outro estava de cabeça baixa. Sempre que alguém tentava chegar perto deles, ele batia rapidamente em retirada; e quando não estava ao lado dela, estava a arrancar, às vezes em fúria, as mudas que começavam a dar frutos... Aquele cheiro que a nova muda sentiu em sua casa se mesclava, de alguma maneira, ao da velha muda do lago, e ela saberia dizer, a seu modo, de onde aquilo vinha. 

Com lábios carnudos e sempre machucados - talvez por viverem cerrados - a velha muda sinalizou um "fora!" bruscamente com o braço quando a moça se aproximou. Aquele não era um bom dia pra um papo, fosse da maneira que fosse. Mas a nova muda não desistiria tão fácil. E se não dava para ser por ela, que fosse então pelo jardineiro.

Ao se aproximar, o cheiro já denunciou mais da metade do mistério. Era ele o autor do beijo de rapina. Como ele conseguira invadir sua casa e por que fizera isso eram apenas duas das incontáveis questões que lhe rondavam a mente. Percebendo estar a um passo de ser pego, correu e se enfiou na mata. A nova muda voltou-se para a velha em face de desespero, e viu se repetir diante dela, freneticamente, o gesto com o braço. Só então entendeu que não estava sendo expulsa: aquilo era um sinal de indicação. A muda apontava para outra muda, uma pequena planta cercada por arame farpado, a única protegida por ali. Tal zelo era algo altamente representativo, que só podia servir pra esconder algum tesouro ou segredo.

Formava-se ali um elo regado de mistérios. E no centro deste estranho "Triângulo das ber-Mudas" só poderia estar a chave. Cavando desesperadamente ao redor e dentro da cerca, ela viu surgirem alguns papéis. Todos traziam a mesma frase que encontrara em seu criado-mudo, exceto um. Naquele enterrado mais a fundo, havia o trecho mais pesado de sua última conversa com o ex-marido, no dia em que encerraram o casamento ali mesmo naquele parque, num movimentado domingo. Eram palavras duras, das quais ela só se deu conta naquele momento em que perdeu a capacidade de proferi-las... Ainda atônita, viu a Muda do Lago sinalizar a ela que não parasse de cavar. E a quase um braço de distância, enfim a chave. Antiga, enorme e enferrujada, que só poderia abrir portas quase medievais; mas naquela cidade tão pequena, ela não conseguia se lembrar de nenhum lugar assim, tão antigo. 

O cheiro se acentuara após tanta terra revirada, e havia uma gosma incolor impregnada por todo o objeto. Reparou que a velha tinha os olhos fixos na trilha que levava à mata. Como um indicativo, se embrenhou na rota de fuga do jardineiro em busca de um calabouço, um mausoléu ou até mesmo uma cabana suspensa em árvores. E não demorou muito para uma pedra derrubá-la em cima de uma porta camuflada. A chave encaixou e rodou perfeitamente, sem mesmo provocar ruídos. Lá dentro, luzes de lampiões revelavam um sofisticado laboratório de druidas. Inúmeras mudas de plantas, de tamanhos e fases variados, cercadas de papéis. Todas traziam o mantra que ela recebera, e também uma frase triste e ferina. Cada uma regada com uma fonte própria, e cercada de tubos de ensaio.

"Plante suas piores palavras, e assim elas serão mudas!". A frase dita de forma rude quebrou o silêncio local, dominado pelas águas correntes, e eventuais bolhas que explodiam dentro dos tubos. Era o jardineiro, que carregava uma xícara nas mãos. "A seiva cala, e o fruto que nasce cura", concluiu o homem. Ela reconhecera em tantas frases momentos que presenciara no parque. Brigas, ofensas, mágoas, ressentimentos revelados em gritos de puro ódio. E só então compreendeu por que a cidade a cada dia ficava mais quieta: o jardineiro caçava Silêncios! Porque nunca conseguiu cassar as próprias palavras, cassou as alheias até que todas juntas pudessem enfim suplantar as dele, e assim foi... A mistura de todas as seivas o matou instantaneamente. E ele fez questão de partir no meio das duas imensas árvores ali presentes. Uma não trazia um fruto ou uma folha sequer; e sob ela, um verdadeiro diário enterrado. A outra, repleta de frutos e folhas, escondia incontáveis resmas de papel em branco. Era a longa jornada do jardineiro e sua língua mordaz contra talvez um século de retidão, que nunca foi capaz de curá-lo. E de quem seria, então, toda aquela integridade e lisura? E por que tantas chances de cura para quem de nada precisava ser curado? Estava claro que tamanha Ausência não podia ter outro dono...

Um a um, os mudos da cidade adentravam a gruta e tomavam posse novamente de suas palavras, exceto as que foram cassadas e enterradas. A cura estava em não permitir mais que se traísse tão gravemente a Santa Quietude... E a única que não estava ali era a Muda do Lago da Prata. Ela seguia incólume e serena em seu canto. A nova ex-muda, compadecida de sua idade avançada, pensou que o caminho fosse pesado demais e levou-lhe um fruto, o maior que havia em sua árvore. Com um sorriso franco e aliviado, a velha delicadamente o tomou em suas mãos e o arremessou no lago, o mais longe que pôde. 

A grande cobiça do jardineiro, que a ele nunca serviu, só reforçou nela o que aparentemente já nasceu sabendo. Ele tentou se calar de vez, mas nunca pôde. Já ela, decidiu não se curar, pois entendeu que o Silêncio é, e sempre haverá de ser o melhor remédio...

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Ressuscite-me", por favor! 

E quando a Vida se esvazia de um tanto que só a Morte é capaz de preenchê-la? Ou seria a Morte não exatamente um preenchimento, mas uma redenção, o fim de um vazio que dói?

O filme "Mate-me, por favor" ilustra perfeitamente esse vazio onde a Morte tem mas significado e conteúdo que a Vida. Ambientado no bairro da Barra da Tijuca, entre prédios imensos que circundam matas ermas e trilhas quase sinistras, a película se foca em Bia (Valentina Herszage), uma adolescente de 15 anos, seu irmão João (Bernardo Marinho), de 25; e alguns amigos dela. Os pais são ausentes, assim como professores e demais adultos-guias. De liderança, apenas outra adolescente, a pastora da célula religiosa frequentada por eles. Sexo, palavra de Deus, festas luxuosas e assassinatos misteriosos compõem o enredo que mostra fidedignamente os conflitos que ditam o crescimento, a mudança de fase; e o quanto essa geração que tem acesso a tudo na palma da mão, literalmente, não sabe como lidar com isso, e se vê cada vez mais perdida do que encontrada. 

Com poucos diálogos, e muitas cenas escuras ou manchadas de sangue, a autora e diretora Anita Rocha da Silveira narra a obsessão de Bia pela Morte, começando com a notícia de que fora encontrado, no caminho da escola, o corpo de uma jovem; e culminando quando ela e as amigas encontram uma vítima agonizante, que morre bem diante dela. Bia se revesa então entre a vontade de matar com a vontade de morrer. Ora fere as amigas, ora vaga pela noite na esperança de ser a próxima na trágica estatística. "Sangue é vida" é uma das poucas frases proferidas pela jovem, que em sua maioria está calada e com olhar fixo e divagante, seja vazio ou preenchido com sua obsessão, que pareceu eleger Augusto dos Anjos como ídolo norteador. 

Os assassinatos - quem os cometeu, e por quê - acabam sendo esquecidos em tantos momentos, e o melhor é que o filme indica, mas não os resolve. Roteiros abertos estão sendo cada vez mais comuns. O público pouco a pouco vai se habituando a um cinema mais próximos à realidade, onde as coisas não acabam antes dos créditos subirem na tela. E ter um elenco basicamente composto por atores e atrizes em sua maioria desconhecidos e inexperientes traz uma quebra de expectativas que faz com que a história flua ainda melhor. 

A última e mais emblemática cena demonstra que esse é um thriller muito mais psicológico-comportamental do que propriamente um terror-suspense adolescente, e isso até pode frustrar um ou outro espectador. Mas aquele que aceitar mergulhar na psiquê perturbada de Bia não poderá dizer que saiu do cinema sem experienciar a tensão, a dúvida e acima de tudo o Medo. 

"Mate-me, por favor!" realça os ineditismos tão necessários num mundo praticamente assassinado por clichês. 

Maria Eduarda Novaes

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

~Enfim, a Era de AQUARIUS~
BB
 (atenção: contém spoiler)

Quem me conhece bem, sabe de algumas coisas: gosto de TEXTO! Não basta ter um bom argumento, o filme tem de ser bem contado em monólogos/diálogos profundos e marcantes - aqueles que dizem muito com tão pouco. Além disso, adoro encontrar também textos em forma de imagens, principalmente sutis; e gosto que tudo isso esteja diluído em um elenco capaz de reproduzir magistralmente o conjunto. Por fim, não sou nenhuma crítica profissional, então, vão perdoando aí qualquer coisa a seguir... 

Meu mês chegou, e logo de saída já me trouxe de presente de quase-aniversário a estreia de Aquarius - um filme que nasce numa ebulitiva e emblemática festa de aniversário em 1980. Um filme, aliás, cuja polêmica estreou primeiro, extrapolando a pantalha... É óbvio que o veria de qualquer forma, mas impossível negar que minha ansiedade e curiosidade foram amplificadas desde o tapete vermelho em Cannes. E hoje vejo reunido tudo aquilo de que mais gosto num espaço só: Aquarius é uma obra completa! 

Primeiramente (Fora, Temer!), um formato pouco visto, mas já utilizado pelo cineasta pernambucano, Kleber Mendonça Filho; que é um filme em capítulos. Três partes compõem o todo, centrado em Clara (Sonia Braga) e sua resistência em deixar o apartamento - o único ainda habitado - no edifício homônimo. Os porquês dessa resistência são o argumento em si, e cada tentativa de fazê-la mudar de ideia, tendo como réplica as suas condições (a ela tão básicas e indiscutíveis), compreende textos e interpretações indefectíveis, numa trama costurada a mão e com riqueza de detalhes. 

Clara é escritora especializada em música, e responsável por uma obra sobre Villa-Lobos. No aniversário de 70 anos da tia Lúcia, ao invés do tradicional "Parabéns", ao piano foi tocada a canção do compositor, chamada "Feliz Aniversário". No nordeste, a expressa maioria das pessoas celebra aniversários ao som dessa canção, cuja letra diz que "seja a casa onde moras a morada da alegria e o refúgio da ventura"... Anos se passam, e o apartamento é o mesmo. Até alguns móveis. Ou seja, "a morada da alegria e refúgio da ventura" é justo o que Clara pretende conservar com unhas e dentes numa guerra quase solitária onde até seus filhos encaram como pura teimosia dessa "mistura de velhinha com criança". Um espaço que já abriga os netos, mas ainda repleto de discos de vinil e outras antiguidades; de álbuns de família, de cheiros e lembranças de todos os gêneros, que parece importar mesmo só pra ela e para poucos, como sua fiel escudeira, Ladjane (Zoraide Coleto); seu irmão, Antônio (Buda Lira); sua cunhada, Fátima (Paula de Renor); o sobrinho, Tomás (Pedro Queiroz); e as amigas de gafieira e de vida - a advogada Cleide (Carla Ribas), e Letícia (Arly Arnaud), a que lhe indicou um garoto de programa, e depois ficou com ciúmes. 

A gafieira, mais uma tradição bem nordestina, tem outro papel peculiar na história. Sair pra beber, dançar e paquerar é quase que vital. E é após uma saída assim que Clara conhece um homem que a repele tão logo descobre que ela não tem uma mama, extirpada por conta de um câncer. A distância física que ele toma dela de imediato e o desconcerto na voz são um tapa na cara do machismo que só vê a mulher como um corpo, e que deve ser/estar perfeito sempre. Numa sutileza incrível, escancara o que é preciso escancarar. 

E enquanto dá alguns tapas no machismo, o filme simplesmente sapateia na cara da Ganância - sempre a frente das relações familiares, e de tudo o mais que ela precisar passar por cima. E é o embate entre Clara e o jovem Diego (Humberto Carrão), engenheiro que celebra seu primeiro projeto após uma temporada estudando "business" nos Estados Unidos, que pra mim resume tudo. Ao interpelar o garoto, tendo Ladjane como testemunha e colaboradora, Clara mostra a ele que falta caráter às pessoas, falta amor, e respeito pelas relações humanas e pela história de cada um. Que o caráter, hoje, é ditado pelo dinheiro. E é isso! Dizer o que mais? 

Situações que vão de uma "DR" entre mãe e filha a transas tórridas que ignoram quaisquer tabus, passando ainda por uma festa de aniversário para um filho já morto, pintam o quadro real do abismo entre as relações sociais e as pessoais, e mais os abismos de cada uma, preenchida com todos os tipos de preconceitos possíveis e imagináveis. O salva-vidas Roberval, por exemplo, chega a achar que Clara esta dando em cima dele quando ela pede o número de seu celular pra eventuais emergências - sugerindo que não há proximidades sem algum interesse, sexual ou financeiro, como mola propulsora. 

A trilha sonora é um show a mais. QUEEN e Villa-Lobos se destacam acompanhando Taiguara, Gil, Caetano e Bethânia. As musicas embalam uma mulher que incomoda bem mais do que é incomodada. Que une muito mais que aparta. E que se doa muito mais que se isola. E como num clipe musical, o sol inúmeras vezes é visto de frente, iluminando o apartamento; como se nascesse ali, naquele momento, a tal Era de Aquarius. A astrologia diz que quando esse signo reinar, trará uma evolução individual de forma acelerada, e com ela uma fraternidade a solucionar questões sociais com igualdade, proporcionando um conhecimento além do intelecto e da razão, com grande percepção dos sentimentos... Enquanto dança na sala pra esquecer os problemas, Sonia Braga abre pra nós os portais dessa Era, antecipando bem as coisas. Porque Clara enfrentou a morte e viveu. Gente assim, enfrenta o que vier.

Conhecer caras novas e rever outras como Carla Ribas e Julia Bernat (mãe e filha em Campo Grande), além de Irandhi, deixou um gosto ainda melhor. Como atriz que sou, pensei, num ato de pura breguice momentânea, que "quem me dera ser filha de um peixe pra nesse límpido Aquarius atuar", mas... Pelo menos soube aproveitar ao máximo o que expectei. 

Ao fim, nada poderia ser mais metafórico: Aquarius é cupim de demolição no já falido sistema capitalista e na pequenez humana que prega. Grandiosos mesmo, nesse cenário, são o edifício e sua incansável escudeira. 

Maria Eduarda Novaes